domingo, 2 de dezembro de 2012

Fichamento - Aulas 2 e 3

KENDON, Adam. Conducting interaction: Patterns of behavior in focused encounters. Cambridge: Cambridge University Press, 1990.

Por Felippe Thomaz e Paulo Victor Sousa
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Sobre o autor: 
Adam Kendon tem formação em biologia e psicologia experimental pelas universidades de Cambridge e Oxford. É uma autoridade no que concerne ao estudo dos gestos e sistemas de sinais em interações humanas. Atualmente é editor do jornal GESTURE (http://benjamins.com/catalog/gest).


Objetivos do capítulo:
O capítulo, intitulado “Frame-attunement in interaction”, propõe uma análise de processos de interação social nos quais a presença física\corpórea dos atores em determinados ambientes condiciona uma série de ações que tem, como objetivo geral, a manutenção da coerência da situação social. Aproxima-se autores como Goffman e Garfinkel para compreender a dinâmica de atividades em torno do encontro entre indivíduos.


Argumentação Central:
Kendon se propõe a investigar como se dá o compartilhamento de frames por indivíduos em interação. A partir de uma partilha básica de signos e referenciais, ocorre a sustentação de um processo de interação. O que o autor pretende investigar é como este frame se estabelece. Para tanto, apreende o corpo como um conjunto de segmentos que transmitem informações intencionais e não-intencionais ao outro e, neste processo, o ator não somente se adequa à presença do interlocutor, como se ajusta ao espaço onde se encontra, utilizando elementos do “cenário” a fim de conduzir a situação ao objetivo desejado. Sua reflexão se vale de diversos exemplos ao longo do texto para ilustrar como os gestos e expressões corporais podem ser identificados como sinais e\ou comandos durante a interação.



Tópico 1 - Introdução:
O autor inicia a discussão ressaltando as diferentes interpretações que podem ocorrer - e certamente ocorrem - quando em um processo de interação. Como garantir que A entendeu o que B quis dizer com o que disse? Visando uma situação que tenha por objetivo o estabelecimento e manutenção da coerência da interação, este mesmo processo só se sustenta no compartilhamento (mesmo que ínfimo) de características da situação e das intenções do outro. O idioma, alguns referenciais identitários, interesses, entre outros, constituem a “enciclopédia intertextual” que será utilizada pelos atores durante o processo de interação. Citando Garfinkel, o autor afirma que caso não haja correspondência adequada na interação, o resultado pode ser confusão, raiva e desapontamento.

É em um contexto de “interação focada”, no qual os indivíduos buscam a “definição da situação” a partir da partilha de frames interpretativos que Kendon questiona como esse frame partilhado, esta perspectiva interpretativa comum, se estabelece.

De início, já atenta para a importância dos sinais corporais fornecidos pelos atores durante a interação. Tal processo social só se sustenta quando há respostas positivas de um aos estímulos dados por outro. Kendon atenta para o recorte do seu objeto situando-o no tempo enquanto processo em fluxo. As leituras recíprocas efetuadas pelos interagentes durante a situação poderão ser previstas por qualquer uma das partes. No entanto, é somente no desenrolar da ação que o ator terá a confirmação de sua expectativa/presunção. Para observar tais fenômenos, Kendon lança seu olhar aos processos de rotinização para extrair daí elementos que lhe auxiliem a pensar a constituição de frames interpretativos comuns e como estes constructos condicionam o fluxo da interação.


Tópico 2 - Routinization:
É nos processos de rotinização que Kendon se aproxima do conceito de tipos\esquemas de conduta apropriados a cada situação. Participantes da interação operam em termos de uma categorização recíproca, lêem-se de acordo com padrões estabelecidos em experiências anteriores. Este processo não está dissociado da representação que faz para o outro, obviamente. Segundo Goffman, o ator estabelece selves para si na interação. Gerencia sua aparência e modos de acordo com as convenções estabelecidas pelo ambiente e pelo interlocutor.

Por outro lado, há sempre espaço para a incerteza na interação. "O que você quer dizer com isso que você diz?", tal questionamento sugere uma discussão trazida por Goffman acerca da transmissão\emissão de informações. Frames interpretativos diferentes, sugerem possíveis interpretações diferentes. O autor exemplifica este caso com uma situação na qual se dá o encerramento de uma situação de interação qualquer. Os atores envolvidos na cena terão de concordar quanto ao fim da interação para que esta de fato ocorra. Quando não há consenso entre os atores, o desviante assume uma postura irrelevante, inconsistente ou disjuntiva perante o grupo. O frame pelo qual lança seu olhar ao mundo já não é comum aos demais integrantes do antigo grupo.


Tópico 3 - Differential attention in interaction:
A negociação de um consenso operacional ("working consensus") da interação consiste da complacência dos participantes em eleger somente alguns aspectos de comportamento como ações. É necessário compreender que a corrente de ação do outro é composta de uma camada intencional [mensagens intencionais] e outra não intencional. Os atores, quando em processo de interação, deverão estar atentos às linhas de ação do outro mesmo que não demonstre destinar atenção. Durante a interação, os atores exploram reciprocamente suas perspectivas interpretativas e negociam medidas de aceitação no sentido de manter, novamente, um consenso operacional.Kendon cita o conceito de attentional tracks, de Goffman: diferenciação na atenção dispensada às ações.
1. STORY-LINE TRACK - um aspecto da atividade como uma linha principal ("main line"). Domínio de ação delineado como relevante ao objetivo principal do encontro. Orientação e cuidados para definir e sustentar a interação.
2. DIRECTIONAL TRACK - Corrente de sinais que está excluída do conteúdo da atividade mas que serve para regulá-la, margeá-la, articulá-la.
3. DISATTEND TRACK - Variedade de ações não contadas como parte da interação de maneira nenhuma. Descarregos de conforto ("Creature comfort releases"). Há certa margem de aceitação para desvios comportamentais como ajustes de postura, leve coceira...
Em suma, o que está em jogo é a negociação dos atores em eleger o que será principal e guiará o curso das ações (digno de atenção direta) e, por outro lado, o que será tratado como secundário - ou sequer considerado -, merecendo pouca atenção.
Kendon formula a máxima de que o frame attunement só ocorre se houver o processo de atenção diferenciada. Ou seja, se determinadas linhas receberem destaque e outras continuarem secundárias ao mainline.
Conclui o tópico convidando à refletir sobre como estes atos significantes se tornam relevantes para outros indivíduos. O que está velado nos gestos dos atores quando em interação? Como sabem como a atenção do outro é organizada? No caso do exemplo de jogo que fornece, por exemplo, quais são os elementos que "abrem" o círculo mágico?


Tópico 4 - The communication of attention:

Neste tópico, Kendon apresenta o exemplo de uma performance feita por uma criança no sentido de impressionar seu pai com um ioiô. Descreve como a menina ocupa uma região periférica do quarto, praticando com seu brinquedo discretamente e como, posteriormente, convoca a atenção do pai para uma exibição dos truques que aprendeu. Prontamente, ela posiciona-se no centro da sala, espera seu pai abandonar o jornal que lê para concentrar a atenção no pequeno corpo a sua frente. A menina, durante os turnos do ioiô, olha para seu pai e examina as respostas que ele fornece.
Relacionando este exemplo às considerações que propõe, Kendon destaca os framing actions desempenhados pela criança no sentido de tornar uma ação a maintrack e manter a situação desta forma (address and its reciprocation) até que esta se conclua. O momento em que a apresentação inicia é nitidamente contrastado aos momentos anteriores e posteriores à representação em si.
Em suma, o que é requerido para a interação focada é 1) aspectos de comportamento que sirvam no processo de fornecer um locus espaço-temporal à atividade da interação e 2) que estes aspectos de comportamento sejam diferentes daqueles aspectos constituídos como atividades maintracks. Ou seja, é preciso considerar os elementos secundários, pois são igualmente valiosos no que diz respeito ao fornecimento de informações acerca do processo interacional.


Tópico 5 - Spatial-orientational positioning:

O posicionamento espaço-orientacional, chave deste tópico, é uma delimitação temporária do espaço na qual os interagentes consentem em arranjos através dos quais sustentarão o objetivo (perspectiva orientacional) da interação. "Cooperando com o outro para sustentar um dado arranjo espaço-oriental, eles (os atores) podem demonstrar uma comunalidade de leitura (da situação)" (p. 247).

A posição espacial e orientacional do indivíduo fornece informações sobre seu frame interpretativo ou domínio atencional. Baseia tal justificativa, primeiramente, na ideia de que qualquer linha de ação que a pessoa possua sempre terá relação com determinado ambiente ("se vou escrever, organizo meu ambiente para tornar tal ação possível"). O que Kendon afirma, em linhas gerais, é que há consequências espaciais para qualquer linha de atividade. O indivíduo se reajusta continuamente em relação ao que o rodeia, mudando, com isso, sua linha de ação.

O autor ainda traz o conceito de transactional segment como o espaço no qual o indivíduo irá desempenhar sua linha de ação, que é guiada por determinado objetivo. Neste sentido, utilizará do espaço para manipular sua atuação em prol do que almeja da interação. O segmento transacional pode ser reconhecido pelos outros pela posição, orientação e organização postural do corpo.

No tocante ao corpo, o autor o considera enquanto uma organização de segmentos responsáveis, cada um a seu modo, por diferentes orientações. O corpo é contemplado em sua relação entre mobilidade e limitação. O movimento dos olhos é mais móvel, mas é mais limitado (pois depende da cabeça). O frame se apresenta através daquilo que está frente ao torso. Mudanças na orientação do "corpo inferior" produzem implicações para mudanças na atenção. Em suma, o que Kendon afirma no presente tópico é que a orientação corporal condiciona a atenção que o indivíduo dispensa a determinadas partes do ambiente.


Tópico 6 - Formation arrangements:

É de interesse de Kendon identificar como os indivíduos podem fornecer informações acerca da relevância que o outro tem a partir da maneira como se organizam no espaço e como incluem ou excluem os outros nos respectivos segmentos transacionais. Aborda padrões espaciais pelos quais os indivíduos se agrupam e destaca um destes padrões: o F-formation (face-formation).

Este padrão se constitui quando os indivíduos estão posicionados de frente uns para os outros. Uma postura que permite um acesso direto e igualitário aos demais atores na interação. Este sistema de formação não somente integra os indivíduos pertencentes ao grupo como delimita a região com relação aos que não fazem parte daquele agrupamento. Geralmente a disposição espacial dos indivíduos formam círculos ou retângulos. Esta característica reforça mais uma vez a preocupação do autor em observar a influência do corpo em processo de interação social.


Tópico 7 - Interactional relationships:

O presente tópico inicia com o autor considerando que diferentes distâncias resultam em diferentes tipos de informação e maneiras de conduta. Os atores então selecionarão a que distância estarão um do outro conforme a intencionalidade da situação social. Kendon amplia a discussão afirmando que não somente a distância, como também o ângulo altera o fluxo de interação. Indivíduos sentados frente a frente tem uma visão privilegiada do outro, no entanto, se estão lado a lado, partilham de um mesmo horizonte. Esta mudança de angulação já seria condicionante da interação em fluxo.

Apesar de haver pouca bibliografia sobre a dimensão espacial na interação face a face, Kendon afirma que há obsevações suficientes que possam fundamentar a relação entre arranjo espacial e modo de interação. O posicionamento espacial é visto como um recurso expressivo para atores, uma vez que é visto como “fora” do curso de ação.

Agora, segundo o autor, importa observar como os atores empregam manobras espaço-orientacionais como meios de testar os alinhamentos dos demais com relação a determinado frame. Por exemplo, os gestos de inquietação em determinado momento da interação podem sugerir o fim da interação, se os demais agentes assim procederem.

No tópico seguinte, o autor aproxima-se mais do seu interesse específico.


Tópico 8 - Frame attunement

Considerando os elementos pelos quais os atores podem fornecer pistas ou respostas sobre a manutenção da situação apresentados até então, sobretudo no que concerne à orientação espacial dos indivíduos no cenário, Kendon reforça que tais ajustes têm função secundária e formam a estrutura da interação que se apresenta. A partir daí, parte à análise de alguns aspectos relacionados à interação, a começar pelo destino das ações que, segundo o autor, sempre têm um “endereço”.

ADRESS - Resumidamente, o que está em jogo é o estabelecimento de uma conformidade com relação à relevância de determinado frame para o grupo. Para quem se destina este discurso? É a pergunta que emerge nessas reflexões. Kendon observa a troca de olhares entre como marcante para selecionar quem participa da interação e dar linha à performance do ator. Além disso, movimentos de cabeça e mudança nas expressões faciais são padronizadas em relações sistemáticas do falante com seu público.


RHYTMICAL COORDINATION - Os ajustes de postura podem ser ritmicamente desempenhados em função do discurso do falante. Tal movimento coordenado pode indicar que participantes demonstram que compartilham a mesma perspectiva na interação. Além disso, pode assumir um papel de código entre a plateia e o falante, uma vez a atenção estará nas deixas que o falante dará ao longo de sua fala. A questão é que uma pessoa pode modificar sua linha de ação e conformar seu ritmo ao de outrem.


SALUTATIONS - No sentido da combinação rítmica abordada acima, as saudações se constituem enquanto recortes valiosos para esta abordagem. Antes de A saudar B, terá de avistar B e certificar-se que B está aberto à saudação de A. A coordenação de comportamente pode ser observada antes da troca de saudações.


Tópico 9 - Functions of salutational exchanges

As saudações podem ser observadas a partir de uma série de estágios. Assim como variam em sua apresentação, variam também conforme suas funções. Após citar alguns exemplos, Kendon ressalta características das saudações gestuais: a) alto grau de convencionalização; b) saudações são estruturadas de maneira que os participantes fazem a mesma coisa simultaneamente. A coornação das ações em simultâneo corresponde a um respeito pelo outro e que os atores encontram-se em igualdade perante o outro.

É dito que a troca de felicitações entre atores, por serem tão convencionalizadas, são bons exemplos de comunhão fática: não servem a nenhuma função informacional.


Tópico 10 - Gradients of explicitness

O derradeiro tópico propõe pensar as linhas de ação em uma escala de explicitude que varia conforme a intencionalidade do emissor e a percepção do receptor. Por exemplo, quando um restaurante está prestes a fechar, os garçons desarrumam as mesas, os encarregados da limpeza iniciam seu serviço etc. Caso estes indícios não sejam suficientes para levar a um novo consenso operacional, os atores serão mais explícitos a fim de que a situação que busca estabelecer ocorra de fato.


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