Por Paulo Victor Barbosa de Sousa e Felippe Thomaz
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Sobre o autor:
Michael Argyle foi pesquisador da Universidade de Oxford, tendo trabalhado em áreas como Psicologia Experimental e Psicologia Social, abordando temas como felicidade, competência, habilidade e comunicação não-verbal.
Objetivos do capítulo: O capítulo parte de bases já lançadas em momentos anteriores do livro em que se apresentam componentes básicos dos processos de interação social. Tendo tais elementos em mãos, o autor passa, aqui, para a apresentação e discussão de modelos conceituais que deem conta dos processos interativos.
Argumentação Central: Argyle se ocupa no capítulo discutido com as sequências de interação que ocorrem em díades, propondo-se a apresentar três modelos teóricos que deem conta dessa proposta. São eles: o modelo Sequência de Respostas (SR); o modelo de habilidade social; e o modelo de sistema em equilíbrio. É este último que o autor adota, justamente pelo fato de os outros dois estarem demasiadamente centrados em indivíduos, não no conjunto formado entre dois interatores – o que se explica pelo fato de ser díade o ponto que interessa às discussões do texto.
Tópico 1 - Introdução: Na parte introdutória, além de explicar a que se propõe, o autor apresenta também métodos de pesquisa que lidem especificamente com as interações em díades. São eles: a) análise estatística de sequências em interação normal; b) técnicas experimentais com um cúmplice; c) técnicas experimentais com dois sujeitos não-cúmplices; d) técnicas que eliminam a interação; e e) métodos projetivos.
Tópico 2 – Modelo de sequências de respostas
No modelo SR, compreende-se que cada ato é determinado pelo ato imediatamento anterior. Dessa forma, um interator atua em reação ao último ato do outro indivíduo que compõe a díade. Uma vantagem apontada por Argyle se dá em relação à teórica facilidade de ser prever ações tendo em vista atos anteriores. Ainda assim, aponta que a principal dificuldade se dá em relação à percepção da pessoa. De qualquer forma, é possível perceber a ocorrência de padrões dentre os enunciados, os quais são chamados de sequências regulares. Seriam elas os tópicos, os tipos de enunciado e a duração da fala. Também é possível perceber padrões dentre elementos não-verbais.
Um ponto específico para a superação do modelo SR se dá quanto à motivação de cada indivíduo envolvido na interação – o que não pode ser captado por esse esquema teórico. Vejamos: se o modelo SR compreende cada ação como uma, de fato, uma reação a atos anteriores, como e quando teria lugar a ação inicial de uma sequência de ações? Além disso, Argyle coloca outra consideração: que é necessário perceber regras ou esquemas pré-concebidos sobre a dada situação, bem como os papéis de cada interator e os processos psicológicos das pessoas envolvidas. Apesar de sua própria crítica, o autor enumera alguns padrões comportamentais ou maneiras de ocorrência de feedbacks entre os interatores, o que chama de encaixe de respostas (p. 204). São eles extensão de enunciados, interrupções e silêncios, tipo de enunciado, palavras usadas, gestos e posturas, informações pessoais.
Esses encaixes podem ocorrer, pelo menos a princípio (e sem grandes discussões quanto a outras possibilidades) por imitação e reciprocidade (p. 205). A imitação pode ser utilizada em situações em que um interator copia a resposta do outro diante da mesma situação de uma outra semelhante. Um exemplo dado está relacionado ao pedestre que ignora a sinalização e atravessa a rua mesmo com o sinal verde para os carros. Entretanto, Argyle faz a ressalva de que a imitação é algo mais complexo do que um mero conjunto de respostas produzidas por condicionamento – no caso acima, outros pedestres podem estar condicionados a repetir a ação diante de certas características daquele indivíduo que iniciou a ação. Já em relação à reciprocidade, esta se dá quando um interator retribui uma ação do outro – sendo que a reação não será igual, mas sim de igual valor e calculada a longo prazo. O autor apresenta diversas variáveis quanto às formas de recriprocidade.
Tópico 3 – O modelo de habilidade social
Nesta parte, Argyle concentra-se nas análises do comportamento de um interator. Ao considerar o modelo SR como um todo, o autor conclui que aquela abordagem falha ao não considerar a sequência relacionada e intencional de respostas dada por cada indivíduo em uma interação. Ao se compreender que cada interator tem objetivos determinados e ao se reconhecer que cada interator sabe-se possuidor de interferências na ação do outro, então deve-se considerar que o comportamento de cada um tem um aspecto de “habilidade motora” (p. 214). Argyle define habilidade como “uma atividade organizada, coordenada em relação a um objeto ou uma situação, que envolve toda uma cadeia de mecanismos sensoriais, centrais e motores” (p. 214), especificamente caracterizada por um input sensorial.
Argyle propõe, dessa forma, que um interator está sempre envolvido num processo duplo e não automático de percepção: observa-se e compreende-se o input disponível para ele, de modo tal a adaptar o próprio output para o outro. O autor traz à tona vários detalhes desse processo:
- Definição de objetos/motivação: o indivíduo tem objetivos imediatos ou objetivos mais genéricos com objetivos menores dentro desse maior.
- Percepção seletiva de pistas: o indivíduo aprende a perceber pistas relevantes e passa ser seletivo a elas.
- Tradução da situação: trata-se do manuseio e tratamento da informação captado pelos sistemas de recepção. Uma vez reunidas, serão transformadas num plano de ação.
- Respostas motoras: é um retorno do planejamento para nosso corpo, ou seja, uma produção de ações e movimentos.
- Feedback e ação corretiva: trata-se do uso das pistas para tomar novas ações corretivas.
É preciso atentar, como o próprio autor fala, que esse modelo é só um ponto de partida. Argyle propõe duas elaborações principais (p. 221): 1) os indivíduos podem se colocar uns no lugar dos outros; 2) é necessário atentar que os interatores estão jogando o mesmo jogo e, assim, deve haver uma sequência tal de respostas que torne possível a situação de interação. O autor se atém, tendo em vista esse modelo, o item específico de cada um preocupar-se com o ponto de vista alheio (p. 224).
Parte-se da assunção de que, quando numa interação, estamos preocupados com manipulações e percepções. Dentre a eficácia de cooperações ou competições, é preciso atentar que outros processos dependem de nos colocarmos no lugar do outro: a autorrepresentação, a compreensão de ser observador ou observado e a tomada de papeis.
Tópico 4 – Díades (sistemas em equilíbrio)
Aqui Argyle passa a tratar a interação a partir da dimensão de dupla influência entre os interatores, superando a visão estritamente pessoal que os outros modelos propunham (que, de maneira geral, não parece assim tão pessoais).
Inicialmente, consideram-se as abordagens que visualizam as trocas de recompensa e custo (teoria da troca), mostrando experimentos que esclareciam os movimentos de uma interação como busca de recompensas pessoais (p. 230). São, em geral, modelos econômicos que postulam os atos pessoais em meras ações em busca de benefício, mas que nem sempre observam, status ou outras condições subjetivas para a ocorrência das ações. Também há de se perceber que os indivíduos não precisam necessariamente apenas estar preocupados com seus próprios benefícios, mas com os de terceiros também envolvidos no contexto da interação (232).
Para o autor, a teoria das trocas é útil para visualizar o papel dos reforços. Considera, no entanto, que esse modelo não é adequado à interação social, uma vez que seus componentes (fluxo de sinais, efeitos de movimentações, fluxos comportamentais, preocupação com o contexto etc.) podem até ser englobadas por essa teoria, mas não podem por ela ser analisados (p. 236).
Para além dos padrões de conflito (que caracterizam em grande medida os modelos econômicos de troca e recompensa), Argyle enumera algumas condições proporcionadas pela coordenação, as quais irão resultar no sustento da interação (237).
- Conteúdo da interação: concordância sobre o que está em jogo.
- Dimensão das relações: concordância sobre a definição da situação e sobre os papéis a serem ali desempenhados, dos graus de intimidade e das condições de poder entre os interatores.
- Duração da fala: ou os modos de se portar numa conversa
- Sequência de comportamento: conjunto de respostas apropriadas para cada resposta anterior.
- Correspondência não-verbal: dar sinais de feedback para o outro interator.
- Tom emocional: tendência de um mesmo estado emocional entre os interatores.
Tópico 5 – A formação das relações
Para finalizar o capítulo, Argyle trata dos diversos processos que têm lugar desde quando duas pessoas se encontram pela primeira vez até o estabelecimento de relações mais duradouras. Há discussões pontuais sobre a aproximação dos indivíduos, da formação da amizade, das frequências e similaridades de interação e de envolvimentos amorosos. Cada subtópico, contudo, não possui aprofundamento e apenas servem como conjunto de exemplos de procedimentos a transcorrerem não apenas na interação em si, mas também em ocasiões mais expressivas, de maior representação, como a transição de noivado para casamento.
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