BURKITT, Ian. Social Selves
- Theories of Self and Society. SAGE Publications Inc. Thousand Oaks,
California, 2008.
Por Íris Araújo
Sobre o autor: Ian
Burkkit, psicólogo britânico, pesquisador no departamento de Ciência Social e
Humanidades na Universidade de Bradford.
Objetivo do
capítulo:
Explorar e argumentar as ideias desenvolvidas por alguns autores, na busca de
compreender como os fatores intrínsecos ao mundo contemporâneo têm influenciado
o processo de construção e compreensão do self na atualidade.
Argumentação
central: Burkit, relata sobre como as transformações
ocorridas no mundo contemporâneo, tem trazido a necessidade de rever a
concepção do self, deixando de ser individual e imutável, e passando a ser
continuamente modificada e multiplicada(com
possibilidades em potencial), através do intenso fluxo dos meios de comunicação
que estamos expostos, pois tem favorecido a interação com pessoas de
diversificados estilos de vida. Tal configuração contemporânea, coloca em
discussão o questionamento ‘Quem sou eu?’ em um mundo globalizado, fragmentado,
onde a possibilidade de uma sustentação de identidade tem se tornado remota.
Tópico 1 –
Social saturation and e satured self: O autor, a
partir da perspectiva de Gergen indica que um dos principais fatores das
mudanças ocorridas na sociedade, é denominado de tecnologia da saturação
social, no qual, estão incluídos todos os sistemas de telecomunicações desde os
mais antigos até os mais recentes. Chamando atenção de como as diversidades dos
meios de comunicação existentes no mundo contemporâneo e de como os mesmos
favorecem que as pessoas estejam entrando em contato com distintos tipos de
conhecimentos, valores, culturas, religiões, ideias e estilos de vida, de
maneira que não poderia ser possível no passado.
Bukkit, citando Mead e Bakthin, aborda que quando os autores discutem que
nossos pensamentos foram povoados por palavras, fazem referencia da relação
face – a – face ou no máximo personagens conhecidos da literatura. No entanto,
hoje com expansão midiática, supõe que houve uma transcendência dessas relações
de tal forma, que as pessoas se tornaram íntimas de pessoas que nunca se encontraram
pessoalmente. Este favorecimento das diversidades de encontros que influencia
nosso modo de vida contribui para inúmeras possibilidades que poderíamos ser
futuramente.
Ainda nesta questão, Jameson denomina os selves contemporâneos como
esquizofrênico, pelo fato de serem constituídos de múltiplos selves, se
apresentando de forma imitativa, sem profundidade e emocionalmente vazio.
Todavia, Gergen distingue o self como multifrênico, não em um sentido de uma
patologia, mas pontuando como um estilo de self característico do mundo pós –
moderno.
A partir de um restropecto histórico, Gergen e Jameson, citam que os filósofos
do Iluminismo traçava um self que buscava controlar suas paixões agindo de
forma racional. Já o romantismo acreditava em um self composto de uma essência ou
voz interior que dizia quem somos, se nos conectássemos a ela. No entanto,
Gergen afirma que o self pós – moderno surge, a partir dos processos
tecnológicos de saturação social, que não são caracterizados nem pela sua
racionalidade, nem pela essência interior, mas pelas conexões que realizadas
nos grupos que pertencem. Consequentemente, começa a diminuir a necessidade de
se construir uma identidade própria, coerente e continua, pois o fluxo de
fragmentação social que estamos imbuídos, promove o aparecimento de identidades
unificadas em um conjunto fragmentado de intenções e possibilidades.
Gergen, no entanto, considera estes fatores positivos por que as pessoas
passaram a construir uma rede maior de relações, se libertando da ideia de
possuírem identidades exclusivas, dando possibilidades de inscrever, apagar e
reescrever suas respectivas identidades que são mutáveis, expansivas e incoerentes
estando de acordo com as redes de relacionamento permite que sejamos. Burkkit,
todavia, contesta a tese de Gergen, pois para ele nem todas as pessoas se enquadram
nesta realidade de mudarem constantemente suas identidades, como os moradores
de Rohterham que ainda possuem suas relações em uma escala mais local do que
global.
Tópico 2 – Self
– identities in high modernity: Neste tópico,
o autor cita a concordância entre Giddens e Gergen acerca das mudanças
ocorridas na construção do self, em termos de reflexão sobre suas construções
identitárias. Para Giddens, a modernidade ocidental é uma sociedade pós –
tradicional, pois não depende de costumes e ritos transmitidos de gerações
anteriores para a construção do self, em vez disso, as rápidas inovações
advindas a nível de ciência,
tecnologias, industrias e comunicação, tem dificultado a permanência de
características sólidas de uma geração para a outra.
O autor aborda como o Iluminismo quebrou os dogmas e desafiou a doutrina
religiosa, buscando inspirações no sistema feudal, com o surgimento e a
aceleração do capitalismo industrial houve a quebra do feudalismo e sua
estrutura de poder. Contudo, no começo da era moderna, algumas tradições
características do período feudal ainda se faziam presentes. Já no final do
século XX e no começo do século XXI, tais tradições foram se destituindo. Giddens
chama de modernidade tardia ou alta modernidade, a sociedade que vem se
tornando pós – tradicional, pois as relações estão mais baseadas pelas
possibilidades de escolhas do que em tradições. Isto é notório nos diferentes
arranjos familiares que vem se constituindo atualmente, ultrapassando em alguns
casos questões biológicas. As relações são baseadas muito mais na mutualidade
dos benefícios, na satisfação pessoal e nas possibilidades de escolhas do que
nos laços tradicionais.
De acordo com Giddens, a maior mudança vista por ele na alta modernidade
é o que ele denomina de ‘distanciamento tempo – espaço’, que descreve a maneira
de como o espaço local vem perdendo a importância central na estrutura das
relações e ações sociais, pois agora é possível se relacionar com amigos e
familiares e no entanto, não conhecer o vizinho.
O autor expõe um dos pontos fracos na tese de Giddens, no qual, aponta
ser individualizada quando afirma que as escolhas de uma narrativa biográfica e
estilos de vida são feitas de forma independente dos outros. Contradizendo o
que Mead e Bakthin onde as identidades são construídas primariamente na relação
com outro de forma que nunca pode estar desconectados da maneira como os outros
veem, mesmo que ocorra a representação oposta daquilo que as pessoas imaginam. Burkkit
ainda questiona a que a trajetória biográfica não se configura apenas pelas
escolhas individuais ou por meio de estilo de vida relacionado a determinados
lugares, pois não escolhemos o lugar onde nascemos e certamente possuímos
hábitos particulares destes locais presentes no nosso self.
Tópico 4 – Self
in liquid modernity and the new capitalism: Neste
último tópico Burkkit se baseia na obra de Bauman.
De acordo com Bauman, as duas principais mudanças da identidade no mundo
contemporâneo são a globalização criada no mundo onde as pessoas e capital são
não são ligadas a lugares locais, mas por uma rede de fluxo global de
comunicação, identificação, viagens, emigração, e a interligação com grande
flexibilidade das pessoas favorecendo a perda de uma comunidade estável para
buscarem a constituição de self em caráter global. Tais características são
acrescidas ao termo modernidade liquida trazida por Bauman, fazendo uma relação
metafórica de um sólido que se liquefaz com as relações humanas estabelecidas
de forma fluida através do tempo e espaço. Burkkit afiram que o telefone
celular representa o que existe de mais característico na modernidade liquida,
pois permite as pessoas estarem conectadas com mais de um grupo
simultaneamente, podendo desconectar – se imediatamente se surgir outra
situação de maior interesse, ou seja, as relações humanas tem se apresentado
cada vez mais fluidas e em constante movimento.
O indicadores para o resultante da modernidade liquida, Bauman chama de
capitalismo pesado e capitalismo light. O capitalismo pesado se caracteriza
pelas indústrias pesadas e o investimento intenso de maquinaria, tecnologia e
trabalho, nestes locais o trabalho seguia um perspectiva distinta do capital
pois, os trabalhadores tinham interesses, identidade de uma classe social em
comum. Já o capitalismo light, se move em uma escala global, não possuem
identidade nacional, fidelidade, sem compromissos locais entre capitalistas e
trabalhadores.
Além disso, há uma inquietação das pessoas em como manter um self relativamente
concreto para que as pessoas nos conheçam. Portanto, há uma necessidade para
que estejamos preparados em um mundo fluido exigindo uma adaptabilidade, pois
para Bauman aqueles que não são capazes de ter uma mobilidade são considerados
membros fracos da modernidade liquida. Ainda assim, até aqueles que são
considerados ‘poderosos’, se deparam com vida fragmentada, descoordenada e inconsistente
da narrativa biográfica moderna. Bauman ainda ressalta que tentar criar uma
biografia seria como juntar um quebra – cabeça defeituoso, onde as peças estão
desaparecidas e não existe nenhuma imagem na caixa pra nortear qual seria o
resultado final.
Apesar disso, Bauman traz alguns lados positivos da modernidade líquida.
Primeiro, a globalização oferece a oportunidade das pessoas começarem a ser
identificar com a humanidade como um todo. Segundo, não é dada a importância do
quanto nossas identidades têm sido mercantilizadas, mas sim a questão de que só
o ser humano pode inspirar busca continua de variados tipos de relações.
Outro autor citado é Casey, no qual, concorda com os posicionamentos
trazidos sobre as mudanças ocorridas nas relações sociais dentro da ótica da
pós – modernidade, alta modernidade e modernidade liquida, porém, discorda que
essas mudanças tem diminuindo a importância de um lugar físico. Ele exemplifica
através da permanência dos encontros nos cinemas, a procura de livros e
encontros nas livrarias convencionais e a busca de parceiros através do contato
físico.
Dessa forma, Burkkit tenta mostrar como ainda é
possível ter um sentido relativamente estável e coerente de um self que pode
lidar com mudanças, contradições e com a fragmentação causada pelo capitalismo,
sem reduzir a capacidade do ser humano a ser o mero reflexo de condições sociais
existentes.
Nenhum comentário:
Postar um comentário