FICHAMENTO:
Leary, M.R. The Self We Know and the Self We
Show: Self-esteem, Self-presentation, and the Maintenance of Interpersonal
Relationships. In Fletcher, G.J.O, Clark, M.S. Blackwell Handbook of Social
Psychology: Interpersonal Process. Cap 18, Ed. Blackwell
Publishers Ltd. 2001, 2003.
Por Bruno Cesar de Sousa Silva
Sobre o autor:
Mark R. Leary é PhD em psicologia
social pela Universidade da Florida. É professor de psicologia e neurociências,
e Diretor do programa de psicologia social da Universidade de Duke. Ele
escreveu ou editou 12 livros e tem mais de 200 artigos escritos. Seus
principais campos de pesquisa são motivação social e emoção; Self e
autorreflexão.
Objetivos do capítulo:
O texto tem como objetivo
trabalhar o conceito de aprimoramento do self, da imagem transmitida através da
interação social. Tanto do que se entende por self público quanto o self
privado. O texto trabalha a relação
entre autoestima e auto apresentação, e seus efeitos entre si e sobre os
relacionamentos interpessoais.
Argumentação Central:
O texto tem como argumentação
central a existência de um processo individual de monitoramento e resposta a
eventos interpessoais que funcionam através do que o autor denomina self-esteem
e self-presentantion, sendo o primeiro um alarme que indica a existência de um
problema, e o segundo o caminho pelo qual esse problema deve ser corrigido. O
problema em si seria a manutenção e aprimoramento do valor, e consequentemente
da aceitação que uma pessoa possui aos olhos das outras de seu grupo. Ele
também transcende a polarização entre estes dois conceitos buscando a
interdependência deles.
Tópico 1 - Introdução:
Na
introdução o autor demonstra a polarização existente na literatura relativa ao
self. Temos dois tipos de teorias predominantes, uma que defende essencialmente
um self privado, subjetivo, e outra que investiga um self social, público. Os
primeiros estudiosos do self estavam voltados para uma investigação do privado,
das suas motivações psicológicas, o que afetava a percepção do self, e as
implicações emocionais e comportamentais de como as pessoas percebem a si
mesmas. Com os interacionistas simbólicos temos um campo de estudo voltado para
o self público, que segundo Gofman é o único self verdadeiro. Este não seria
uma característica interna do individuo, e sim um produto de sua imagem pessoal
pública. O texto demostra que desde 1980 já existem pesquisas que demonstram a
interação entre self público e privado.
Tópico 2 – Private and Public Self-enhancement
O self não é apenas uma estrutura
cognitiva que permite autorreflexões e organiza informações sobre o indivíduo.
Ele também tem motivadores, que se dividem em três principais, consistência do
self, avaliação do self e aprimoramento do self. Este último é sobre qual o
texto irá se debruçar. Pesquisas anteriores demonstram a busca dos indivíduos
em construir imagens favoráveis e socialmente desejáveis de si. Greenwald
(1980) compara a motivação do self em construir imagens favoráveis com a de um
governo totalitário, pois assim como este, o ego totalitário distorce os fatos
e reconstrói história de maneira a manter uma avaliação positiva de si. Na
verdade é como se existisse uma necessidade do individuo em preservar uma
imagem de si positiva. E isto pode ser visto nas vantagens comportamentais de
uma boa auto avaliação como autoafirmação, autoestima positiva, e nas
desvantagens de uma auto avaliação ruim como a possibilidade de depressão,
abuso de drogas dentre outros.
Pesquisas demonstram que as
pessoas são seriamente motivadas a conseguir uma avaliação positiva por parte
de outras pessoas. E isto é fácil de compreender tendo em vista que uma imagem
positiva é pré-requisito para varias coisas da vida como relacionamentos
sociais, namoros, amizades e sucesso profissional. Este comportamento de
transmitir imagens de si que favoreçam uma avaliação positiva por partes das
outras pessoas é denominado no texto como auto apresentação ou
self-presentation. Que não é exclusivo
do que as pessoas falam de si, mas também de como se vestem, com quem se relacionam,
e o que possuem materialmente. O texto levanta a possibilidade de transmitir
uma imagem negativa buscando algum objetivo específico como subjugar ou causar
medo em outras pessoas. No entanto este é um procedimento menos usual, sendo
predominante a tentativa de transmitir uma imagem positiva.
Ainda neste tópico o autor
demonstra a importância de definir conceitualmente self público e self privado,
e também a função de um aprimoramento do self privado. Segundo ele o termo self
seria usado para definir exclusivamente um self privado, pois existiria um
aparato cognitivo que promove a autorreflexão e tudo do self seria privado.
Seria próprio do individuo. Segundo ele self público é um termo que tem sido
usado para se referir a três tipos de entidades. A primeira é a imagem de si
transmitida para outras pessoas, a segunda é a crença individual sobre a imagem
pública de si mesmo, e a terceira a impressão que as pessoas tem do indivíduo
que transmite as imagens. Logo no sentido estreito do termo, self público é um
termo utilizado para definir uma série de interações sociais.
Já no caso da função de aprimoramento
do self privado, ou melhor dizendo, da autoestima, ele levanta algumas
possibilidades que justificariam a motivação para desenvolve-la. A primeira
seria lidar melhor com as dificuldades da vida, pois uma autoestima elevada
aumenta também a autoconfiança e promove sensação de bem estar. A segunda seria
que a autoestima promove a integridade do self. Comportar-se de acordo com um
“verdadeiro self”. E a terceira defende que as pessoas não buscam simplesmente
uma autoestima boa por si, mas que esta poderia ser um indicador, através dos
sentimentos subjetivos que causa, de outros desejos sociais, como aceitação
social. Esta terceira possibilidade é adotada pelo texto.
Tópico 3 – Sociometer Theory
De acordo com teoria
sociométrica, seres humanos possuem um mecanismo psicológico que monitora a
qualidade das relações interpessoais, principalmente a forma como outras
pessoas percebem e valorizam o relacionamento com eles. O mecanismo seria menos
ou mais ativo de acordo com as interações sociais, funcionando como um alarme
quando fossem detectados sinais de desaprovação ou redução da qualidade do
relacionamento. Segundo uma visão particular do autor, este mecanismo teria se
desenvolvido nos nossos ancestrais que tinham a avaliação do outro e
consequentemente a disposição em oferecer ajuda como uma condição sine qua non
para a sobrevivência, sendo indispensável perceber e corrigir possíveis
problemas de aceitação social com rapidez. Esses sentimentos desagradáveis
produzidos pela redução da aceitação social, e os agradáveis quando ela aumenta
são, segundo a teoria sociométrica, o que convencionamos chamar de autoestima.
Quando esse alarme dispara o individuo utiliza a auto apresentação para
corrigir os possíveis problemas. Por isso a autoestima é importante, pois serve
de medida para a aceitação e para a rejeição.
Tópico 4 – State and Trait
Self-esteem
As
avaliações pessoais sobre si flutuam com o decorrer do tempo. Pesquisam
demonstram que a autoestima esta fortemente ligada a como o individuo sente-se
no momento atual. Está ligada a quanto de valorização e aceitação social ele
percebe no momento. No entanto existe também o que podemos chamar de
característica pessoal de autoestima positiva, que seria como uma marca que
define um indivíduo que está frequentemente com uma autoestima positiva. Estas
pessoas geralmente acreditam em si, nos valor social que possuem, e na sua
capacidade de se incluir socialmente. As pessoas não buscam ter autoestima
positiva, elas buscam valorização e aceitação social, a autoestima positiva é
uma forma de medir se elas conseguiram.
As
pessoas consideradas de características pessoais de baixa autoestima não são
necessariamente rejeitadas o tempo todo, ou fazem uma avaliação constante de si
negativa. Elas possuem frequentemente uma avaliação neutra de si. Eles
frequentemente apenas não se avaliam positivamente.
Tópico 5 – Moderating Effects of
Self-esteem on Self-presentation
A
teoria sociométrica ajuda a explicar porque autoestima e auto apresentação
estão tão interligados. A autoestima fornece uma indicação de como as pessoas
são aceitas e valorizadas, e a auto apresentação permite corrigir a avaliação
de outras pessoas promovendo mais aceitação e valoração social, o que
consequentemente aumenta a autoestima.
A
autoestima está inversamente ligada à importância que uma pessoa dá a avaliação
dos outros. Pessoas com autoestima baixa são mais fortemente direcionadas a
conseguir aprovação social e evitar desaprovação. As pessoas que foram
desaprovadas em algum contexto estão mais fortemente dispostas a conseguir
aprovação em outros contextos, mesmo que não relacionados. Este processo cria
uma situação onde pessoas de autoestima baixa estão constantemente buscando
aprovação e aceitação. Só que uma das estratégias de auto apresentação de pessoas
com autoestima baixa envolve não piorar a imagem que demonstram. Um objetivo
importante se desenvolve: não ser ainda mais desaprovado. O que produz
comportamentos de autoproteção, de esquiva social, de evitar estar no centro
das atenções. Eles passam a ser cautelosos e evasivos nas relações
interpessoais.
Estas
pessoas sentem-se menos seguras nas relações interpessoais e acreditam que os
vínculos sociais são frágeis. Elas também não acreditam que possam transmitir
uma imagem positiva de si. No entanto podem evitar transmitir uma imagem
negativa. Quanto mais pública for uma
situação, maior será a autoproteção da imagem, e quanto mais privada for a
situação, menor será a cautela e o cuidado com a imagem transmitida.
Tópico 6 – Effects of Self-presentation and Self-esteem
Um dos
objetivos da auto apresentação é aumentar o valor que a pessoa tem aos olhos
dos outros. Em algumas pesquisas foi possível perceber que instruções sobre
como se apresentar corretamente causaram um aumento da autoestima, demonstrando
o efeito de uma auto apresentação eficaz sobre aquela. Pessoas de autoestima
baixa nessas pesquisas “abaixaram a guarda” assumindo comportamentos mais
arriscados socialmente. Esta dificuldade em deixar de ser cautelosos, de
protegerem constantemente a imagem de si pode ser uma das grandes dificuldades
em modificar um quadro de autoestima baixa. Estas pessoas dificilmente correm
os riscos sociais que poderiam levar as outras pessoas a uma avaliação positiva
delas.
Existem,
segundo o texto, três formas de influencia da auto apresentação sobre a
autoestima. Na primeira uma auto apresentação positiva pode aumentar a
autoestima, e uma auto apresentação negativa pode reduzir a autoestima. Na
segunda forma é possível antecipar a reação das pessoas a uma auto apresentação
e consequentemente aumentar ou reduzir a autoestima. Pois o individuo pode
olhar para si através do que acredita ser a perspectiva de outras pessoas. E na
terceira forma temos uma procura tendenciosa, que seria pensar somente nos atributos
positivos e ignorar os negativos. Esta terceira no entanto pode não ser tão
eficaz, pois usualmente tentar ignorar defeitos ou pensamentos sobre defeitos
próprios costuma ser uma forma extremamente eficaz de não conseguir pensar em
outra coisa além dos defeitos. O que certamente seria ruim para a autoestima.
Tópico 7 – Private and Self-enhancement an Self-deception
A ideia
de autoengano é importante dentro de uma discussão sobre self. A noção de que
as pessoas podem ser enganadas pelas avaliações erradas que fazem de si. Esta
noção pressupõe a existência de um self dividido entre uma parte que sabe toda
a verdade sobre o self, e outra que está sendo enganada. Isto é possível em
alguns transtornos psiquiátricos, mas não é claro como funciona com sujeitos
dentro da norma. Segundo o autor o autoengano não faz sentido, pois traria mais
desvantagens do que vantagens. Ele relata que o autoengano como uma ação do
self privado não faria tanto sentido, e que deve-se entender como uma ação do
self público, logo consciente do processo, para transmitir uma imagem desejada.
Tópico 8 - Conclusions
Os dois conceitos principais trabalhados no texto
são autoestima que é uma medida da aceitação e valorização social, e a auto
apresentação através da qual as pessoas tentam causar boas impressões às
outras. O texto mostra a relação estreita entre estes dois conceitos, como
parte de um processo único de monitoramento da aceitação social e da manutenção
desta através da imagem projetada para os outros. O texto termina explicando
que estes não são os únicos objetivos da autoestima e da auto apresentação, mas
defende que a teoria sociométrica é uma forma eficaz de entender esses
conceitos, ainda que não abarque todas as suas possíveis utilidades na vida
prática. Mas que é correto afirmar que tanto a autoestima quanto a auto
apresentação estão estritamente ligadas a tentativa de aumentar a valorização e
aceitação social dentro do grupo.
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