quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Fichamento - Aulas 5 e 6


FICHAMENTO: Leary, M.R. The Self We Know and the Self We Show: Self-esteem, Self-presentation, and the Maintenance of Interpersonal Relationships. In Fletcher, G.J.O, Clark, M.S. Blackwell Handbook of Social Psychology: Interpersonal Process. Cap 18, Ed. Blackwell Publishers Ltd. 2001, 2003.

Por Bruno Cesar de Sousa Silva
Sobre o autor:

Mark R. Leary é PhD em psicologia social pela Universidade da Florida. É professor de psicologia e neurociências, e Diretor do programa de psicologia social da Universidade de Duke. Ele escreveu ou editou 12 livros e tem mais de 200 artigos escritos. Seus principais campos de pesquisa são motivação social e emoção; Self e autorreflexão.

Objetivos do capítulo:

O texto tem como objetivo trabalhar o conceito de aprimoramento do self, da imagem transmitida através da interação social. Tanto do que se entende por self público quanto o self privado.  O texto trabalha a relação entre autoestima e auto apresentação, e seus efeitos entre si e sobre os relacionamentos interpessoais.

Argumentação Central:

O texto tem como argumentação central a existência de um processo individual de monitoramento e resposta a eventos interpessoais que funcionam através do que o autor denomina self-esteem e self-presentantion, sendo o primeiro um alarme que indica a existência de um problema, e o segundo o caminho pelo qual esse problema deve ser corrigido. O problema em si seria a manutenção e aprimoramento do valor, e consequentemente da aceitação que uma pessoa possui aos olhos das outras de seu grupo. Ele também transcende a polarização entre estes dois conceitos buscando a interdependência deles.


Tópico 1 - Introdução:

Na introdução o autor demonstra a polarização existente na literatura relativa ao self. Temos dois tipos de teorias predominantes, uma que defende essencialmente um self privado, subjetivo, e outra que investiga um self social, público. Os primeiros estudiosos do self estavam voltados para uma investigação do privado, das suas motivações psicológicas, o que afetava a percepção do self, e as implicações emocionais e comportamentais de como as pessoas percebem a si mesmas. Com os interacionistas simbólicos temos um campo de estudo voltado para o self público, que segundo Gofman é o único self verdadeiro. Este não seria uma característica interna do individuo, e sim um produto de sua imagem pessoal pública. O texto demostra que desde 1980 já existem pesquisas que demonstram a interação entre self público e privado.

Tópico 2 – Private and Public Self-enhancement

O self não é apenas uma estrutura cognitiva que permite autorreflexões e organiza informações sobre o indivíduo. Ele também tem motivadores, que se dividem em três principais, consistência do self, avaliação do self e aprimoramento do self. Este último é sobre qual o texto irá se debruçar. Pesquisas anteriores demonstram a busca dos indivíduos em construir imagens favoráveis e socialmente desejáveis de si. Greenwald (1980) compara a motivação do self em construir imagens favoráveis com a de um governo totalitário, pois assim como este, o ego totalitário distorce os fatos e reconstrói história de maneira a manter uma avaliação positiva de si. Na verdade é como se existisse uma necessidade do individuo em preservar uma imagem de si positiva. E isto pode ser visto nas vantagens comportamentais de uma boa auto avaliação como autoafirmação, autoestima positiva, e nas desvantagens de uma auto avaliação ruim como a possibilidade de depressão, abuso de drogas dentre outros.

Pesquisas demonstram que as pessoas são seriamente motivadas a conseguir uma avaliação positiva por parte de outras pessoas. E isto é fácil de compreender tendo em vista que uma imagem positiva é pré-requisito para varias coisas da vida como relacionamentos sociais, namoros, amizades e sucesso profissional. Este comportamento de transmitir imagens de si que favoreçam uma avaliação positiva por partes das outras pessoas é denominado no texto como auto apresentação ou self-presentation.  Que não é exclusivo do que as pessoas falam de si, mas também de como se vestem, com quem se relacionam, e o que possuem materialmente. O texto levanta a possibilidade de transmitir uma imagem negativa buscando algum objetivo específico como subjugar ou causar medo em outras pessoas. No entanto este é um procedimento menos usual, sendo predominante a tentativa de transmitir uma imagem positiva.

Ainda neste tópico o autor demonstra a importância de definir conceitualmente self público e self privado, e também a função de um aprimoramento do self privado. Segundo ele o termo self seria usado para definir exclusivamente um self privado, pois existiria um aparato cognitivo que promove a autorreflexão e tudo do self seria privado. Seria próprio do individuo. Segundo ele self público é um termo que tem sido usado para se referir a três tipos de entidades. A primeira é a imagem de si transmitida para outras pessoas, a segunda é a crença individual sobre a imagem pública de si mesmo, e a terceira a impressão que as pessoas tem do indivíduo que transmite as imagens. Logo no sentido estreito do termo, self público é um termo utilizado para definir uma série de interações sociais.

Já no caso da função de aprimoramento do self privado, ou melhor dizendo, da autoestima, ele levanta algumas possibilidades que justificariam a motivação para desenvolve-la. A primeira seria lidar melhor com as dificuldades da vida, pois uma autoestima elevada aumenta também a autoconfiança e promove sensação de bem estar. A segunda seria que a autoestima promove a integridade do self. Comportar-se de acordo com um “verdadeiro self”. E a terceira defende que as pessoas não buscam simplesmente uma autoestima boa por si, mas que esta poderia ser um indicador, através dos sentimentos subjetivos que causa, de outros desejos sociais, como aceitação social. Esta terceira possibilidade é adotada pelo texto.

Tópico 3 – Sociometer Theory

De acordo com teoria sociométrica, seres humanos possuem um mecanismo psicológico que monitora a qualidade das relações interpessoais, principalmente a forma como outras pessoas percebem e valorizam o relacionamento com eles. O mecanismo seria menos ou mais ativo de acordo com as interações sociais, funcionando como um alarme quando fossem detectados sinais de desaprovação ou redução da qualidade do relacionamento. Segundo uma visão particular do autor, este mecanismo teria se desenvolvido nos nossos ancestrais que tinham a avaliação do outro e consequentemente a disposição em oferecer ajuda como uma condição sine qua non para a sobrevivência, sendo indispensável perceber e corrigir possíveis problemas de aceitação social com rapidez. Esses sentimentos desagradáveis produzidos pela redução da aceitação social, e os agradáveis quando ela aumenta são, segundo a teoria sociométrica, o que convencionamos chamar de autoestima. Quando esse alarme dispara o individuo utiliza a auto apresentação para corrigir os possíveis problemas. Por isso a autoestima é importante, pois serve de medida para a aceitação e para a rejeição.

Tópico 4 – State and Trait Self-esteem

As avaliações pessoais sobre si flutuam com o decorrer do tempo. Pesquisam demonstram que a autoestima esta fortemente ligada a como o individuo sente-se no momento atual. Está ligada a quanto de valorização e aceitação social ele percebe no momento. No entanto existe também o que podemos chamar de característica pessoal de autoestima positiva, que seria como uma marca que define um indivíduo que está frequentemente com uma autoestima positiva. Estas pessoas geralmente acreditam em si, nos valor social que possuem, e na sua capacidade de se incluir socialmente. As pessoas não buscam ter autoestima positiva, elas buscam valorização e aceitação social, a autoestima positiva é uma forma de medir se elas conseguiram.

As pessoas consideradas de características pessoais de baixa autoestima não são necessariamente rejeitadas o tempo todo, ou fazem uma avaliação constante de si negativa. Elas possuem frequentemente uma avaliação neutra de si. Eles frequentemente apenas não se avaliam positivamente.

Tópico 5 – Moderating Effects of Self-esteem on Self-presentation

A teoria sociométrica ajuda a explicar porque autoestima e auto apresentação estão tão interligados. A autoestima fornece uma indicação de como as pessoas são aceitas e valorizadas, e a auto apresentação permite corrigir a avaliação de outras pessoas promovendo mais aceitação e valoração social, o que consequentemente aumenta a autoestima.

A autoestima está inversamente ligada à importância que uma pessoa dá a avaliação dos outros. Pessoas com autoestima baixa são mais fortemente direcionadas a conseguir aprovação social e evitar desaprovação. As pessoas que foram desaprovadas em algum contexto estão mais fortemente dispostas a conseguir aprovação em outros contextos, mesmo que não relacionados. Este processo cria uma situação onde pessoas de autoestima baixa estão constantemente buscando aprovação e aceitação. Só que uma das estratégias de auto apresentação de pessoas com autoestima baixa envolve não piorar a imagem que demonstram. Um objetivo importante se desenvolve: não ser ainda mais desaprovado. O que produz comportamentos de autoproteção, de esquiva social, de evitar estar no centro das atenções. Eles passam a ser cautelosos e evasivos nas relações interpessoais.

Estas pessoas sentem-se menos seguras nas relações interpessoais e acreditam que os vínculos sociais são frágeis. Elas também não acreditam que possam transmitir uma imagem positiva de si. No entanto podem evitar transmitir uma imagem negativa.  Quanto mais pública for uma situação, maior será a autoproteção da imagem, e quanto mais privada for a situação, menor será a cautela e o cuidado com a imagem transmitida.


Tópico 6 – Effects of Self-presentation and Self-esteem

Um dos objetivos da auto apresentação é aumentar o valor que a pessoa tem aos olhos dos outros. Em algumas pesquisas foi possível perceber que instruções sobre como se apresentar corretamente causaram um aumento da autoestima, demonstrando o efeito de uma auto apresentação eficaz sobre aquela. Pessoas de autoestima baixa nessas pesquisas “abaixaram a guarda” assumindo comportamentos mais arriscados socialmente. Esta dificuldade em deixar de ser cautelosos, de protegerem constantemente a imagem de si pode ser uma das grandes dificuldades em modificar um quadro de autoestima baixa. Estas pessoas dificilmente correm os riscos sociais que poderiam levar as outras pessoas a uma avaliação positiva delas.

Existem, segundo o texto, três formas de influencia da auto apresentação sobre a autoestima. Na primeira uma auto apresentação positiva pode aumentar a autoestima, e uma auto apresentação negativa pode reduzir a autoestima. Na segunda forma é possível antecipar a reação das pessoas a uma auto apresentação e consequentemente aumentar ou reduzir a autoestima. Pois o individuo pode olhar para si através do que acredita ser a perspectiva de outras pessoas. E na terceira forma temos uma procura tendenciosa, que seria pensar somente nos atributos positivos e ignorar os negativos. Esta terceira no entanto pode não ser tão eficaz, pois usualmente tentar ignorar defeitos ou pensamentos sobre defeitos próprios costuma ser uma forma extremamente eficaz de não conseguir pensar em outra coisa além dos defeitos. O que certamente seria ruim para a autoestima.

Tópico 7 – Private and Self-enhancement an Self-deception

A ideia de autoengano é importante dentro de uma discussão sobre self. A noção de que as pessoas podem ser enganadas pelas avaliações erradas que fazem de si. Esta noção pressupõe a existência de um self dividido entre uma parte que sabe toda a verdade sobre o self, e outra que está sendo enganada. Isto é possível em alguns transtornos psiquiátricos, mas não é claro como funciona com sujeitos dentro da norma. Segundo o autor o autoengano não faz sentido, pois traria mais desvantagens do que vantagens. Ele relata que o autoengano como uma ação do self privado não faria tanto sentido, e que deve-se entender como uma ação do self público, logo consciente do processo, para transmitir uma imagem desejada.

Tópico 8 - Conclusions

Os dois conceitos principais trabalhados no texto são autoestima que é uma medida da aceitação e valorização social, e a auto apresentação através da qual as pessoas tentam causar boas impressões às outras. O texto mostra a relação estreita entre estes dois conceitos, como parte de um processo único de monitoramento da aceitação social e da manutenção desta através da imagem projetada para os outros. O texto termina explicando que estes não são os únicos objetivos da autoestima e da auto apresentação, mas defende que a teoria sociométrica é uma forma eficaz de entender esses conceitos, ainda que não abarque todas as suas possíveis utilidades na vida prática. Mas que é correto afirmar que tanto a autoestima quanto a auto apresentação estão estritamente ligadas a tentativa de aumentar a valorização e aceitação social dentro do grupo. 

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