quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Questões - Aulas 5 e 6

Leary, M.R. The Self We Know and the Self We Show: Self-esteem, Self-presentation, and the Maintenance of Interpersonal Relationships. In Fletcher, G.J.O, Clark, M.S. Blackwell Handbook of Social Psychology: Interpersonal Process. Cap 18, Ed. Blackwell Publishers Ltd. 2001, 2003.

HOGG, Michael A.; VAUGHAN, Graham M. Essentials of social psychology. Published Harlow : Pearson Education. 2010 (p. 64 - 90)


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Mark Leary, durante o texto em questão – datado, válido ressaltar, de 2001 – , aborda a autoestima em duas perspectivas temporais: uma voltada para o momento específico de determinada interação entre indivíduos (state self-esteem) e outra que concerne em uma progressão, uma continuidade da autoestima (trait self-esteem). Ao pensarmos em tais classificações situadas em ambientes digitais, é possível conceber uma supressão do state self-esteem, uma vez que as informações trocadas estarão disponíveis posteriormente para estes mesmos (além de outros) usuários? Neste ínterim, é possível pensar em uma situação que não se espraia ao longo do tempo, como sugere o termo state?

Relendo contribuições anteriores sobre o que se compreende por “self”, Leary chega a afirmar que a aplicação dada a este mesmo termo é questionável, uma vez que o “self” (aquilo que é próprio) se constitui a partir de um movimento observação e reflexão dos demais indivíduos. A imagem que emerge é de um mosaico em autorrelevo, no qual as peças se apresentam e são escondidas de acordo com a situação estabelecida no entorno. Neste sentido – e assumindo o risco da repetição –, a construção e manutenção de um perfil em uma rede social pode ser pensada, em contexto mais amplo, como reflexo de uma superficialidade e instantaneidade que parecem intrísecos à sociedade contemporânea?

É recorrente no campo da psicologia social a discussão em torno da composição do indivíduo como resultado das interações que são estabelecidas ao longo da vida. Desta forma, na atual configuração do mundo em redes de informação – nas quais a supressão geográfica é uma característica fundamental –, podemos afirmar que as novas gerações são muito mais “cidadãs do mundo”? Ou seja, quais os reflexos da maior abertura às influências culturais estrangeiras? É muito apocalíptico afirmar que as tradições serão somente “itens de museu”? A ideia de “self saturado” encontra-se em seu ápice?

Um dos pontos principais da contribuição de Mead diz respeito à distinção entre “I” – self como uma extensão da consciência – e “Me” – self como objeto de percepção alheia. Frente às técnicas de obtenção e catalogação de dados deixados pelos usuários nas redes sociais (cenário de interação), é possível reclamar um interacionismo simbólico quantificável em likes, shares e comments, por exemplo? Frente a isto, há brecha para reformularmos o conceito de “sociometria”?

 No decorrer do texto Hogg e Vaughan trazem contribuições de alguns autores e pesquisas acerca das concepções de self público e privado, bem como suas inter – relações. No entanto, suponho que o self pode ser compreendido como um sistema continuamente aberto mediante vários grupos ou instituições em que o homem participa, pois a questão de afirmar o que seria privado ou público podem ter suas concepções modificadas se considerarmos a mudança de um contexto.

O texto aborda que os indivíduos buscam por uma crescente auto – satisfação  de sua imagem e deseja validar sua existência na presença do outro. A manutenção dessa imagem satisfatória exige um bom gerenciamento da própria vida, pois qualquer falha dos mesmos é considerada fracasso. Ainda que exista a possibilidade de reverter este fracasso, como lidar com estas situações diariamente já que temos desenvolvidos traços cada vez mais narcísicos?

O texto afirma que a interação social é altamente simbólica e por sua vez oferece um modelo sofisticado para a formação do self. Tal constatação me faz pensar no sentido de um processo contínuo, no qual, o individuo busca se apresentar semelhantemente ao outro, a partir dos grupos ou classes que pertencem, percebendo sua unicidade partindo de suas diferenças, pois elas só aparecem quando tomamos o outro como referencial.

Apesar do texto apresentar inúmeras possibilidades e caracterizações do self, percebo que ainda há muito que se refletir e discutir pois passamos por um período onde a cultura do efêmero se faz presente.Pensar em uma  compreensão mais previsível do self perpassa pelo ato de articular dimensões aparentemente contraditórias (igualdade / diferença, individual / coletivo, unicidade / totalidade etc.), mas que são inerentes na pluraridade existente no ser humano.

Podemos pensar as redes sociais como um ambiente de exposição e manifestação do eu ‘verdadeiro’ (o que o indivíduo acha que é, suas opiniões, desejos, etc.) ou apenas de características aceitas socialmente?

Usualmente em redes sociais ,na discrição do perfil, são utilizadas características favoráveis, socialmente aceitas e que designam adequada autoestima. A partir disto, o que se pode pensar da ‘veracidade’ da descrição de tais perfisa nível de consciência do próprio self e identidade?

A partir da observação de ambientes digitais como o Twitter e o Orkut, bem como em relação às suas ferramentas, pode-se inferir que o primeiro trabalha com as características e estimulação da exposição do self individual e o segundo com o self coletivo (através da comunidades, por exemplo)? 

A partir dos conceitos e exposições acerca da autoestima e baixa autoestima, pode-se inferir que os indivíduos que fazem cyberbullying e que expõem problemas como a anorexia e bulimia em veículos como os blogs, são sujeitos que possuem baixa autoestima ou adequada autoestima? De que forma os ambientes digitais funcionam e colaboram para estas práticas? 

No texto, os autores afirmam que a interação social depende das pessoas conhecerem a si mesmas e ao outro. Porém, nos ambientes digitais, muitas vezes não é possível saber e conhecer os indivíduos que se encontram em um determinado diálogo. Sendo assim, é possível existir uma interação onde a identidade não é revelada?

Ao se descrever em perfis de redes sociais, o indivíduo pode estar tentando responder a uma determinada definição pessoal ou ele se auto descreve baseado no que ele acredita ser um perfil de referencial identitário?

As interações realizadas através das redes sociais buscam uma necessidade de aprovação a partir dos comentários e publicações realizadas? Neste sentido, no que se diferem as interações virtuais das interações face a face?

No decorrer do texto, é apresentada uma distinção entre os conceitos de private self e public self. Após o surgimento das novas tecnologias estes conceitos ainda se aplicam, ou eles precisam ser reconfigurados a partir dessas novas formas de interação social?

Interessante a afirmação do autor sobre as recompensas externas retirarem o prazer de uma atividade. Ouve-se falar frequentemente sobre os problemas causados pela internet e por jogos eletrônicos principalmente a jovens estudantes que precisam se concentrar em suas obrigações. Será que há nestas atividades, estudar e jogar/navegar, alguma diferença intrínseca em termos de recompensa para a atividade ou para o desempenho?

Como a psicologia pode se voltar para o estudo de interações sociais em ambientes digitais a partir dos conceitos de self? Mais especificamente, o foco do estudo será nos indivíduos interagindo ou nos grupos como coletivos? Segundo o autor, este último foco seria das sociologia e da ciência política. A psicologia não tem ferramentas para lidar com esse objeto de estudo?

Sobre a segunda possibilidade dos efeitos da self-presentation na self-esteem: o que é "imaginado" pode simplesmente ser que a auto-observação do indivíduo detecta que a própria self-presentation realizada naquele momento se assemelha a outras que ele mesmo ou alguém utilizou e não foi bem recebida pela audiência. Portanto, o "colocar-se no lugar do outro", na verdade, seria um lembrar-se, ainda que não conscientemente, de situações passadas nas quais ocorreu um insucesso na self-presentation e, consequentemente, baixa na auto-estima?

O quão útil a distinção entre self privado e público é? O acesso ao suposto self privado, de qualquer forma, é obtido através do que um indivíduo pode relatar sobre o que sente ou pensa. Esse relato não é filtrado, de alguma maneira, pelas habilidades atribuídas ao self público? Ainda que algumas destas estejam fora do indivíduo (a impressão que os outros tem dele)? Além disso, o próprio aprendizado da linguagem, "instrumento" utilizado para relatar o que se sente, não é dado através de relações públicas? O quanto este aprendizado interfere na forma como se relata, ou até se percebe, o chamado self privado? 
São muitas teorias tentando extrapolar as barreiras do self interno, inacessível e misterioso, colocando-o como uma construção no processo de interação do indivíduo com o mundo num tempo e espaço, sempre em transformação. Essas teorias no entanto ainda parecem fazer distinções, como entre self público e privado, ou entre “I” e o “Me”, entre o que sou, o que acho que sou e o que acho que os outros acham que sou, que ainda dicotomizam o processo não negando completamente a existência do “self interno”. Estaria-se caminhando para a admissão da existência de múltiplos selfs? Quando aos teóricos colocam que nos damos conta do self público e do privado, eles presumem que existam selfs dos quais não temos consciência?

A consciência de si (selfawareness) é interessante para pensar a dificuldade que muitas pessoas tem de se deparar com o que “são” ou “como se mostram”, como por exemplo ao ver fotografias antigas ou ao assistir a uma filmagem e se surpreender com seu comportamento e sua aparência. Essa dificuldade de se perceber de fato como se é ou como os outros nos percebem e as mudanças que ocorrem nessas percepções tornam ainda mais interessante a teoria da comparação social e as mudanças de esquemas sobre si na busca pela coerência do self e pela “boa inserção social”.

O que aparece no texto como razões para autoestima, escondendo de si os pontos negativos e superestimando os pontos positivos para manter um desempenho ideal, lembra o tripé que Hogg e Vaughan trouxeram: superestimar os pontos positivos, estimar maior controle sobre os eventos e ser bastante otimista, como estratégias para se manter seguro socialmente. A consciência excessiva de si seria de fato uma ameaça a autoestima e ao bem estar, já que os textos colocam possíveis consequências como estresse, depressão? De que forma isso se atrita com a crença de que a busca pelo autoconhecimento e pela compreensão de si mesmo elevariam o bem estar e a aceitação pessoal?

O texto apresentou a autoestima como um construto também público que é influenciado e influencia a apresentação/representação social. No entanto o grau de autoestima não parece reduzido apenas a capacidade de influenciar pessoas ou ao fato de agradar e ser admirado. Por mais que os fatores externos modulem diretamente, há um fator de autopercepção e do histórico de interações que a pessoal desenvolveu que induzem a uma superestimação dos sinais dados pelo meio ou subestimação de tudo o que aparenta ser para as pessoas. O que seria esse fator mediador para o aumento ou diminuição da autoestima para além dos feedbacks do entorno? 
No final do texto, Leary afirma que a auto-apresentação não funciona apenas como um meio de obter valorização interralacional, mas também pode ter outros fins. Em que medida pode-se dizer que ela funciona como baliza para a construção de "eus" diversos ao invés de ferramenta de direcionamento identitário?

Sendo a auto-estima um reflexo do modo como pensamos sermos enxergados por terceiros, até que ponto se pode afirmar que ela não se encontra em um "eu" particularizado, mas sempre externo à própria pessoa?
  
No tópico "The Self? I or We" (p 65), os autores questionam se o conceito de self é um fenômeno coletivo ou individual. Mas como lidar com eles de modo plenamente separados senão segundo uma abordagem meramente pedagógica? A noção da individualidade não implica necessariamente numa compreensão oposta, a de coletividade?

No final do texto (p. 84), os autores citam Greenberg, para quem a busca por auto-estima é decorrente do medo da morte. Ora, essa teoria não teria validade apenas para sociedades que lidam com a ideia de luto? Não haveria culturas não-cristãs, por exemplo, para as quais a morte não é necessariamente algo indesejável? Ou o luto poderia ser considerado um a priori biológico da nossa espécie?

Se notamos no texto a importância exercida pela percepção que temos de nós mesmos, isso faz com que a análise das interações sociais, que ocorrem em um determinado ambiente digital, em torno de um tópico e um período específicos, dependa até que ponto de um entendimento sobre qual é essa percepção existente nas pessoas observadas?

Se o self está continuamente sendo construído/refeito, quais são os elementos que nos dariam uma visão menos mutável sobre quem é o público que estamos abordando? Como afirmar, então, quem é o nosso público em uma pesquisa?

Quando falamos da noção de 'aprimoramento', que vai ocorrendo ao longo das interações sociais, estamos nos referindo a um conjunto de objetivos, como 'reforçar/manter aspectos positivos' e 'evitar aspectos negativos'. O ser humano, ao interagir, nunca buscará uma neutralidade -ou será indiferente aos objetivos anteriormente citados?

Existem estudos que mapeiam conjuntos de táticas utilizadas, em ambientes digitais, que trazem características sociotécnicas diversas e particulares, para alcançar os objetivos de 'reforçar/manter aspectos positivos' e 'evitar aspectos negativos'?

Pensando na relação entre auto-estima e identidade social, de que forma pode-se afirmar que uma alta auto-estima deriva de aspectos positivos identificados e reconhecidos nos grupos sociais a que uma pessoa pertence?  Um indivíduo pode apresentar alta auto-estima  na interação com determinados grupos ou contextos sociais, e em outros apresentar baixa auto- estima?
De que forma a publicização de traços das interações nos sites de redes sociais, e a consequente explicitação de traços de aceitação ou recusa de indivíduos, por outros indivíduos ou grupos em sites de redes sociais podem complexificar a conformação da auto-estima?
Considerando o raciocínio de Leary, que afirma que pessoas com baixa auto-estima, tendem a ser menos seguras em suas relações sociais, e por isso costumam arriscar menos em suas representações do self, pode-se afirmar que tais pessoas tendem a se expor menos ou a despenderem mais energia em sua auto-apresentação em sites de redes sociais a fim de evitar possíveis avaliações negativas?

De que forma o consumo de bens materiais e a identificação com as marcas participam da construção do self? Até que ponto a utilização dos mesmos nesse processo pode ser uma prática positiva, não caindo no consumismo vazio de sentido?

Podemos pensar as redes sociais como um grande palco para a construção/exibição de selfs ideais? De que forma essas projeções são construídas? Quais são as práticas mais comuns utilizadas pelos usuários esta construção?

Para Leary (2001), a auto-estima e sua manutenção através da auto-apresentação giram em torno do desejo de aprovação social. Seria então a "aprovação social" a base motivacional para a participação e o engajamento das pessoas nas redes sociais?

A partir de que ponto as discrepâncias entre o self privado e o público podem ser consideradas uma patologia?

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