PÓS-GRADUAÇÃO
EM PSICOLOGIA - UFBA
DISCIPLINA: IPSB53 - INTERAÇÕES SOCIAS E AMBIENTES
DIGITAIS
PROF. JOSÉ CARLOS RIBEIRO
FICHAMENTO:
GOFFMAN, E. On Face-Work: an Analysis of
Ritual Elements in Social Interaction. In: LAVER, J.; HUTCHESON, S. (eds.) Communication
in face to face interaction. Baltimore:
Penguin Books, 1972, p. 319-363.
por André Bomfim dos Santos[1]
Precisamos
compreender que a conversação tem vida, demandas e comportamentos próprios. É
um micro-sistema social com suas regras de manutenção de fronteiras; um pequeno
fragmento de envolvimento e lealdade com seus heróis e vilões particulares.[2]
Erving
Goffman
SOBRE O AUTOR
O cientista social canadense Erving Goffman
(1922-1982) trouxe para o estudo das interações sociais, os métodos de observação
e análise da antropologia cultural, sustentando um paralelo entre as primeiras
e as ritualizações ancestrais. Em sua obra mais representativa, A representação do eu no cotidiano,
Goffman fala de uma teatralização das relações através de interações simbólicas,
pelas quais os indivíduos demarcam seus papéis sociais e suas expectativas em
relação uns aos outros. O autor produziu também importantes estudos sobre o
comportamento de pacientes em hospitais psiquiátricos, resultando na obra Asylums: Essays on the Social Situation of Mental Patients and Other Inmate. A relevância da sua produção lhe rendeu títulos diversos, como “um dos seis intelectuais mais citados em humanidades e ciêncas sociais” (The Times Higher Education Guide). O presente texto é o primeiro ensaio de Goffman, em que o autor trabalha o conceito de fachada (face).
OBJETIVOS DOS CAPÍTULOS
No
capítulo 17, Goffman apresenta conceitos fundamentais para o estabelecimento de
uma interação focada, seja face a face ou mediada. Entre estes, destacamos:
padrão de interação (line), fachada (face), equilíbrio (poise), manutenção de fachada (face-work)
e restauração de fachada (face-saving).
No capítulo 18, o autor traça um panorama dos possíveis fatores que conduzem um
interator à alienação do processo de interação, a exemplo das preocupações
externas, autoconsciência e a consciência do outro.
ARGUMENTAÇÃO CENTRAL
Vivemos
num mundo de encontros, onde as interações sociais são parte inevitável do
nosso cotidiano, sejam elas face a face ou mediadas. Ainda que esse processo
ocorra, na maior parte do tempo, de forma espontânea, o estabelecimento de uma
interação focada envolve um intenso e complexo investimento de energia por
parte dos interatores, tanto na construção de fachadas (faces), quanto na manutenção de um padrão de interação (line) que conduza, através de ações
verbais e não-verbais, ao equilíbrio (poise)
desse processo. Goffman denomina esse esforço mútuo na construção e sustentação
dessas fachadas de manutenção de fachada (face-work).
É através da manutenção das fachadas que os interatores chegam a um padrão de
aceitação mútua: o pressuposto básico para uma interação focada. Mas existem
fatores, internos ou externos ao processo, que conduzem os interatores ao
desvio da atenção e ao conseqüente declínio da interação. Entre esses fatores
de alienação (modes of alienation)
estão a preocupação, autoconsciência e o tédio.
1 INTRODUÇÃO E CONCEITOS
O
estabelecimento de um padrão de interação (line)
é um pressuposto básico para o estabelecimento de uma interação focada. Esse
padrão de ações verbais e não-verbais permite aos indivíduos a avaliação recíproca
e a construção de fachadas (faces).
Estas últimas possibilitam, por sua vez, a formação de impressões mútuas e a
manutenção do processo interativo.
Uma
fachada é um valor social positivo assumido pelo indivíduo a partir da sua percepção
pelos outros. Ou ainda uma imagem de si mesmo baseada na aprovação social dos
outros interatores. De onde podemos concluir que a fachada do próprio indivíduo
e a fachada dos outros são construtos da mesma ordem. Em outras palavras, um
construto mútuo, baseado no reflexo de si próprio no outro e no ambiente social
à sua volta. Quando as fachadas são mutuamente aceitas, podemos dizer que está
estabelecido um padrão de aceitação mútua. Uma vez estabelecido, o padrão de
aceitação mútua reforça a autoconfiança dos participantes, através da aprovação
contínua de suas ações, que devem ser coerentes com as fachadas estabelecidas.
Mas é
claro, que ao largo dessa situação ideal, existem situações desviantes, geradas
pela inadequação da fachada ao ambiente social, à natureza da interação e às
expectativas dos outros interatores. Goffman cria expressões particulares para algumas
delas:
a) to be in
wrong face: quando o indivíduo executa ações incoerentes com o
padrão interativo estabelecido;
b) to be out
of face: quando o indivíduo interage sem ter uma visão
clara do tipo de padrão esperado pelos outros interatores;
Tais
situações levam o indivíduo quase sempre ao constrangimento e embaraço. A
partir daí, dependendo de suas habilidades sociais, ele poderá sucumbir ao
desconforto, evitando outras interações sociais semelhantes (avoidance process) ou superá-lo através
de ações corretivas (corrective process),
que restabeleçam o equilíbrio em um processo de restauração de fachada (face-saving). As ações de face-saving são aquelas através das
quais o indivíduo se utiliza do seu “jogo de cintura” para mostrar aos outros
que ele não sucumbiu ao embaraço (has not
lost face), mantendo a sua fachada incólume ao equívoco.
A
capacidade de um indivíduo em empreender ações de manutenção de fachada (face-work) é popularmente chamada de
“tato, savoir-faire, diplomacia ou
habilidade social.” E os desvios supra-citados, relacionam-se às situações de
gafes ou fiascos.
2 O PROCESSO DE MANUTENÇÃO DE FACHADA
(FACE-WORK)
Evitar novas interações sociais que ameacem a
fachada pode conduzir o indivíduo ao isolamento social. Daí a necessidade de
desenvolver as habilidades corretivas. Segundo Goffman (p. 333), “quando um
incidente ocorre, o indivíduo cuja fachada foi ameaçada pode tentar reinstalar
a ordem social se utilizando de uma determinada estratégia, às vezes diferente
daquela esperada pelos outros participantes.” Isso revela a complexidade do
processo de reinstalação do equilíbrio e nos remete a situações cotidianas, em
que nos vemos diante do dilema, por exemplo, de rir dos nossos próprios “micos”
ou fingir mutuamente que ninguém os percebeu. A partir de uma situação como
essa, o processo de restauração de fachada (face-saving)
pode ser iniciado pelo próprio indivíduo ou pelos outros. Lembrando que numa
interação focada existe uma cooperação mútua na manutenção das fachadas.
Uma outra possibilidade de ajuste é denominada pelo
autor de auto-reprovação (self-denial):
quando os interatores não têm entre si uma ideia clara do julgamento adequado
em uma determinada situação de embaraço social, uma das partes toma a inciativa
de assumir o erro, já prevendo a indulgência alheia. Um anfitrião que ao ver um
convidado se esbarrar em um objeto no meio da sala pode, por exemplo, dizer
algo do tipo “eu sabia que esse vaso não devia ficar no meio da sala”,
retirando do outro o peso da gafe, aliviando a tensão e permitindo um retorno
ao equilibro.
3 INTERAÇÕES E RITUAL
Goffman estabelece um paralelo entre as interações
sociais e o ritual, em que os interatores são objetos sagrados, em busca de um
estado de conversação (state of talk)
regido por um “ethos específico ou
uma atmosfera emocional”, em que as interferências internas são reguladas e
restringidas. O autor chega a se referir a esse momento como um “transe
socializado”. Os interatores estabelecem dessa forma um cuidado ritual (ritual care), em que suas ações e
julgamentos são avaliados constantemente, de forma recíproca, no intuito de
manter essa espécie de suspensão do mundo exterior. “O assunto da conversa
torna-se o foco principal da sua atenção cognitiva e o outro interator, o foco
visual da sua atenção” (p. 347).
4 ALIENAÇÃO
Ao largo
de um processo de envolvimento ideal entre os interatores, existem situações em
que falhas ocorrem, conduzindo os mesmos a situações de desatenção, inquietação
e desconforto. No jogo do convívio social, não faltam situações em que somos
obrigados a sustentar interações, mesmo não havendo um real interesse ou mesmo
uma real “sintonia” com outros interatores. Existem também situações em que o
grau de formalidade funciona como uma barreira ao envolvimento mais genuíno
entre os participantes. E é exatamente esse descompasso entre a obrigação de
manter um envolvimento espontâneo e as dificuldades em fazê-lo que coloca as
pessoas em situações delicadas. Esses problemas demonstram que o envolvimento
entre as pessoas “é algo frágil, com marcos de fraqueza e declínio, além de um
estado precariamente instável, que pode, a qualquer momento, conduzir o
indivíduo à alguma forma de alienação” (p. 350). Entre as formas de alienação,
estão:
a) Preocupações externas: quando
assuntos alheios ao encontro atrapalham o envolvimento do indivíduo;
b) Autoconsciência: quando o
indivíduo presta mais atenção do que deveria ao seu desempenho como interator,
incluindo aí aspectos de sua auto-imagem;
c) Consciência sobre a interação: ao invés
de se envolver espontaneamente, o indivíduo se preocupa com a condução e
adequação da interação em si;
d) Consciência sobre os outros
interatores: quando o indivíduo se preocupa excessivamente com
a impressão e o julgamento do outro sobre si e suas ações. Ou ainda, quando
características específicas do outro são capazes de desviar sua atenção, a
exemplo da beleza, feiúra, defeitos, dicção, estrabismo etc.
Goffman
adverte para o fato de que esses fatores de alienação ocorrem de forma dinâmica
e muitas vezes, concomitante. Ao perceber, por exemplo, que cometeu uma ação
que comprometeu o equilíbrio da interação, o indivíduo pode começar a desviar
sua atenção tanto para o seu próprio comportamento, quanto para a reação dos
outros.
CONCLUSÕES
A
abordagem de Goffman expande o estudo das interações focadas para situações com
mais de dois participantes e, segundo o próprio, são perfeitamente aplicáveis a
interações mediadas, além daquelas face a face. O autor se refere aos encontros
sociais como momentos ritualísticos, que pressupõem o envolvimento espontâneo
dos interatores e os conduzem a um senso de realidade particular. Esse senso de
realidade se opõe às formas de alienação. Dessa forma, Goffman revela a
dinâmica que fazem as interações sociais tornarem-se ora focadas, ora
desfocadas. O que, ainda segundo o autor, pode levar a uma maior compreensão
daquilo que leva o ser humano a um maior comprometimento ou à alienação em
relação a outros tópicos além das interações, como a política, por exemplo.
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