segunda-feira, 11 de março de 2013

Fichamento 02 - Aula 12


ELLISON, Nicole B.; HANCOCK, Jeffrey T.; TOMA,Catalina L. O perfil como promessa: um arcabouço para conceituação da auto apresentação  em perfis em sites de namoro online [tradução nossa]. New Media &Society, junho, 2011.


Por Aline Carvalho Alves Peixoto

Sobre os autores:
ELLISON, Nichole B., é professora dos cursos de Telecomunicação, Estudos da Informação e do Departamento de Mídia da Universidade de Michigan;
HANCOCK, Jeffrey T., trabalha no departamento de psicologia da Universidade Cornell, em Ítaca, Nova York. Professor dos cursos de Comunicação na Faculdade de Agricultura e Ciências da Vida; Presidentedo departamento de Ciência da Informação e da Faculdade de Computação e Ciência da Informação;
TOMA, Catalina L., é PhD pelo departamento de Comunicação da Universidade de Cornell, mestra em Comunicação pela Universidade de Cornell, Bacharel dupla em Artes em Inglês e em Comunicação de Massa pela Universidade de Bridgeport.

Objetivos do capítulo:
Tece uma análise acerca da construção do perfil de usuários de sites de namoro, bem como a maneira como estes compreendem os exageros, ambivalências e equívocos presentes nas descrições presentes nos perfis, propondo o arcabouço do “perfil como promessa” a ser cumprida num futuro onde se dará o encontro entre os pares.

Argumentação central:
Os autores propõe a ideiade “perfil como promessa”, argumentando que a construção dos perfis presentes em sites de relacionamento pelos usuários dos mesmos, não pretende proporcionar uma representação fidedigna dos sujeitos. Ao invés disso, objetiva o desenho de uma identidade dinâmica, formulada por vários “eus” (presente, passado e futuro) que se deseja ser em um futuro onde se dará o encontro face-a-face, uma vez que o perfil é consumido pelos pares em um momento futuro. Assim, as características que denotam os equívocos, ambiguidades e exageros presentes nas descrições, se possíveis de serem reais no futuro ou não muito diferentes da realidade, são considerados aceitáveis. Se o equívoco for muito diferente do real, é percebido como uma falta moral e assim imperdoável no momento do encontro.


Tópico 1 – Introdução:
O texto é iniciado pela antiga questão “quem sou eu?” proposta por filósofos por muito tempo e fundamental para os usuários da internet que se deparam com ela a cada vez que se apresentam neste ambiente. Os autores tratam que as representações podem ter diversas formas, como descrições da wikipedia, perfil de site de relacionamentos ou página pessoal na internet. Já em relação aos fóruns online, é colocada a ampliação de quanto a apresentação reflete ou diverge da experiência real da comunicação face-a-face. Com a dificuldade de se traduzir a experiência real em uma descrição “estática”,são esperadas, e por vezes aceitas, discrepâncias entre estes, contudo não são em outras situações. Os autores colocam que apesar de pesquisas tratarem destas diferenças, ainda existem lacunas na construção de um arcabouço conceitual para a compreensão de como os usuários justificam tais diferenças, como por que algumas são concebidas como benignas e outras não.
É descrita a pesquisa como de caráter exploratório da maneira como os usuários conceituas distorções nas representações (suas e de seus pares) em um gênero específico de auto-apresentação que se dá em sites de namoro online.
Foram utilizados dados coletados de 37 participantes deste tipo de site, explorou-se a compreensão destes sobre práticas de auto-apresentação/representação, “especificamente como as discrepâncias entre tais representações online e off-line são construídas, avaliadas e justificadas” [tradução nossa]. Para a compreensão da visão dos usuários, foi utilizada a abordagem qualitativa (Strauss e Corbin, 1998) a qual permitiu a continuidade ao trabalho empírico desenvolvido anteriormente. Com base na análise realizada, foi proposto o arcabouço “O perfil como promessa” [tradução nossa], como prisma de análise da captura a compreensão do usuário sobre as representações no perfil a partir da análise qualitativa de suas reflexões.
Foi proposta uma revisão da literatura sobre “representação nos perfis”, bem como o que falta ser explorado neste contexto e a teoria da “comunicação mediada por computador (CMC)”.


Tópico 2 - Auto-apresentação em perfis
Perfis em sites de namoro online
Os autores iniciam o texto descrevendo os perfis online como portfólios de representação estáticos, os quais contém descrições textuais e fotos que são relevantes especialmente para aqueles usuários que desejam um relacionamento pois são uma porta de entrada para uma relação face-a-face.
É ressaltada a possibilidade de aceitação ou rejeição baseada no conteúdo do perfil e desse modo os sujeitos são motivados a construir descrições atraentes aos outros. Os “exageros” observados pedem ser fruto deste contexto.
A pressão por construir um perfil que seja atraente aos pares podem ter diversas razões, como a perda de parceiros caso o perfil seja pouco preciso quando o encontro ocorrer; o desejo de que o par goste do sujeito como ele é e não por uma versão idealizada; a preferência por embelezar ao invés de mentir devido ao desejo de se perceber como honesto.
Os autores ressaltam que frente à duas opções de consequências negativas, os sujeitos preferem usar ambiguidades, informações nem verdadeiras e nem falsas mesmo sem a possibilidade de serem pegos. Neste contexto, tais decisões são influenciadas por três fatores nos ambientes de sites de namoro: a sinalização, assincronismo e a divisão de expectativas conceituais. Para explicar a influências destes fatoresforam utilizados o modelo Hyperpersonal (Walter, 1996) e de Base Comum (Clark, 1996).
O modelo Hyperpersonal pretende explicar o efeito das características da tecnologia em ganhos relacionais e como as propriedades do ambiente online podem transformar aquele que envia, o que recebe, o canal, e a dinâmica do retorno. Na presente pesquisa o modelo foi utilizado para compreender a construção e a justificativa dos equívocos na construção dos perfis. O conceito de Base Comum (Clark, 1996) foi utilizado para compreender o processo pelo qual os usuários de comunidades online específicas desenvolvem e baseiam as expectativas que dividem.

Auto-apresentação do eu em ambientes sem sinalização
O modelo Hyperpersonal pretende descrever o processo de selecionar a auto-representação que, nesta visão, é o comportamento que se busca para formar uma imagem para os outros, tendo por objetivo influenciar outras pessoas a responderem da forma desejada. Segundo Goffman (1959) apud Ellison et al (2011), a auto-representação envolve revelações estratégicas e/ou ocultar informações para apresentar uma imagem desejável.
Este modelo ressalta que o ambiente online proporciona mais controle em relação aos sinais dados nas apresentações pessoais pois muito do que seria evidente nas relações face-a-face não são aparentes neste contexto, como características de gênero, idade e localização. É necessário dizer em textos como meio de comunicação. Tal contextoinduzem a ambiguidades no processo de formação de impressões, especialmente em relação à características mais subjetivas, devido à falta de auto-conhecimento e/ou devido à esforços conscientes para disfarçar. Por fim, o perfil que se apresenta online é moldado pelas possibilidades tecnológicas de cada espaço de interação.

Assincronismo e fatores temporais
Segundo Ellison et al (2011), o modelo Hyperpersonal estabelece que comunicações assincrônicas oferecem aos usuários maior tempo de reflexão e edição de suas mensagens e recursos cognitivo, permitindo auto-representações seletivas  impressões idealizadas. Nas comunidades de namoro online, o tempo entre a produção do perfile quando ele será lido é importante para considerar quando examinar a representação e a aceitar as discrepâncias. Os perfis são construídos para serem consumidos em um tempo futuro, tal ambiguidade temporalsuscita a antecipação da versão do eu que deverá soar verdadeira em um momento desconhecido no futuro.
Os autores tratam que a dificuldade da tarefa se dá no fato de que identificar-se é uma ação à ser realizada em um tempo. As pesquisas apontam que apresentar o eu ideal de alguém é uma estratégia para resolver pressões em ser ao mesmo tempo honesto e seletivo.

Expectativas contextualmente divididas
Segundo Ellison et al (2011), o modelo Hyperpersonal foca em como fatores técnicos e sociais afetam a auto-representação e a dinâmica interpessoal online, sem se dirigir diretamente aos tios de normas sociais ou códigos aceitos pela comunidade que podem surgir em um ambiente online em um determinado tempo. Os autores abordam o conceito de Base Comum Comunal como fatos, normas e procedimentos do léxico que se assume ser conhecido pelos membros de uma dada comunidade, como por exemplo uma gíria que significa algo em um grupo mas em outro não.
No contexto do namoro online, a Base Comum Comunal se fixa em termos usados para a auto-representação e que afetam como as discrepâncias são percebidas. Ellison et al (2011) explicam que os usuários podem se basear em expectativas compartilhadas pelo grupo sobre um tipo de comportamento e como termos descritivos são normalmente interpretados por seus pares. Como exemplo, foi observado em trabalhos anteriores que usuários de sites de namoro tendem a exagerar certas características pessoais pois assumem que outros da mesma comunidade fazem o mesmo. Heinoet al (2010) apud Ellison et al (2011), demonstra em pesquisa que participantes de sites desenvolviam estratégias de interpretação de descrições físicas que levam certo nível de exagero e embelezamento. Expectativas de embelezamento podem influenciar a avaliação sobre a aceitabilidade do mesmo pois os sujeitos esperam esta ação quando acessam as mensagens de outros.

O estudo atual
O objetivo da presente pesquisa era a compreensão de trabalhos anteriores que focaram na auto-representação em contextos de sites de namoro online através do exame de como os usuários contextualizavam seus perfis a luz de uma série de fatores. Foram explorados a maneira como os usuários tomam decisões a respeito das diferenças em seus perfis e nos perfis de seus pares e em se estas diferenças são aceitáveis. Foi focado a produção e a avaliação do perfil de auto-apresentação, e como pergunta de partida foi questionado: como pessoas que buscam relacionamentos online conceituam a aceitabilidade das discrepâncias entre a representação online e a realidade no mundo off-line.

Tópico 3 - Métodos
Participantes do site, investigação e procedimento
Neste tópico os autores descrevem a metodologia de pesquisa. A coleta de dados foi iniciada em Nova York e os participantes foram recrutados através de anúncios que explicitavam a proposta da pesquisa. Foram incluídos usuários heterossexuais que quatro dos mais tradicionais e populares sites dos EUA (Yahoo, Personal, Match. Com/MSN ,Match. Com, American Singles e Webdate) e foram incluídos sites que se baseiam no sistema de agrupamentos (por ex. eHarmony).
Os sujeitos se registraram para o estudo e deram informações sobre o serviço online que usaram, seus nomes de usuário e endereço de e-mail. Os nomes de usuário serviram para localizar os perfis online e identificar participantes caso fosse confirmado que eles tinham um perfil em algum dos sites. Oitenta participantes foram incluídos no estudo geral do qual os 37 primeiros foram entrevistados, fornecendo a base para analise. As entrevistas foram interrompidas quando foi atingida a saturação e não estávamos obtendo informações novas dos participantes. Foram entrevistados 12 homens e 25 mulheres, variando da idade de 18 a 47 anos, com media de 30 anos. Em media, os participantes se cadastraram há aproximadamente dois anos nesses sites, a duração mais curta sendo 2 meses e a mais longa sete anos.
Os participantes foram entrevistados individualmente na New SchoolUniversity em Manhattan. Primeiramente, os participantesse apresentavam com uma cópia impressa de seus perfis online e foi pedido que classificassem a exatidão (definida como a “extensão pela qual as respostas refletiam a verdade a respeito de você agora” e respondessem com uma escala de 0-5 de completamente falso até completamente verdadeiro)cada elemento em seus perfis, assim como a aceitabilidade geral da mentira naquele tópico. Os elementos dos perfis incluíam campos como idade, peso, ocupação e religião. Os participantes completavam a pesquisa e eram entrevistados pelo terceiro autor. Ao finalera pedido aos sujeitos que se engajassem em procedimentos de medição, dados os agradecimentos, inquiridos e eles recebiam trinta dólares de incentivo.

Coleta de dados
Para a coleta de dados foram utilizados métodos qualitativos de forma a possibilitar aos participantesdescrever suas percepções e experiências usando as próprias palavras e usando seu próprio arcabouço conceitual e terminologia. As entrevistas duraram em media 30 minutos. O entrevistador selecionava elementos do perfil que estavam classificados como equivocados e sobre estes eram feitas perguntas como forma de instigar os entrevistados. As entrevistas eram semiestruturadas, utilizando um protocolo na entrevista geral, contudo as questões a ser seguidas permitiam ao pesquisador investigar mais profundamente seus tópicos de interesse. Os participantes também eram livres para conduzir as entrevistas para áreas mais proeminentes. O protocolo da entrevista era designado para extrair percepções sobre a aceitabilidade de vários tipos de equívocos de representação e as lógica guiando as avaliações feitas através das questões como:
Você pode descrever seus processos mentais enquanto decidia como responder às perguntas?
Que tipos de distorções são aceitáveis nos perfis?
Que tipos de distorções não são aceitáveis nos perfis?

Análise de dados
Cada entrevista foi gravada digitalmente, transcrita por um estagiário e então checada pelo entrevistador. “As entrevistas transcritas foram analisadas usando Atlas.ti. O método de comparação constante (Strauss e Corbin, 1998) foi usado para localizar temas comuns e obter um maior insight sobre as questões de pesquisa. O processo analítico empregou uma abordagem teórica sólida, onde níveis sucessivos de analise criaram uma “compreensão teórica abstrata  da experiência estudada” (Charmaz, 2006, p. 4)” [tradução nossa]. A principio, foram identificadas as categorias que emergem dos dados, como “estratégias de auto representação”, “fotografia”, “aceitabilidade social” ou “definições- o que é a mentira?” usando um processo de codificação aberta. Partes dos dados foram codificadas nessas categorias em um esquema de acordos onde cada grupo de perguntas-respostas  era tratado como uma unidade.
“No segundo degrau da analise, partes das entrevistas relacionadas a aceitabilidade dos equívocos no perfil foram assinalados e mais profundamente explorados através de um processo de seleção de códigos  e construção de memorandos” [tradução nossa]. Esse sistema de analise de memorandos, que foi intensivamente discutido e revisado pelos pesquisadores, ressaltou as diferentes categorias, como  maleabilidade, que emergiram quando os participantes discutiam a aceitação dos equívocos.
Finalmente, através de um processo interativo envolvendo frequentes discussões entre os autores, refinamento das categorias de aceitação e revisão da base de dados, foi proposta uma visão comum para interpretar os dados: a promessa. Essa visão, não estava articulada expressamente pelos participantes, contudo servia para unificar o arcabouço através do qualos dados foram compreendidos, evoluindo até o arcabouço do “o perfil como promessa” . Após este processo foi revisada a literatura sobre o conceito de promessa em outros contextos, como em entrevistas de trabalho, na tentativa de entender melhor o fenômeno da “promessa”.

Tópico 4 –Achados
Neste tópico os autores descrevem os pontos abordados na análise dos dados. Ellison et al (2011) referem que foi explorada a maneira como os usuários entendiam o que o perfil representava e como eles conceituavam a aceitação das discrepâncias entre as declarações no perfil e a verdade. É comentado que não havia uma expectativa de veracidade total do perfil, e sim uma imagem construída que refletia uma identidade fluida, composta do eu passado, presente e futuro, limitada pelo auto-conhecimento do usuário. Foi colocada também a relevância das contenções sociais dentro do contexto de relacionamentos online que levaram a uma flexibilidade na aceitação das informações contidas no perfil, fossem estas ambíguas ou exageradas.

Mudança no perfil: Assincronismo ou licença para mentir
Os achados retratam que a flexibilidade nas descrições nos perfis e a magnitude nas diferenças entre auto-representação online e off-line afetou as concepções de aceitação para os sujeitos. A mudança no tempo e a assincronia do perfil afeta a maneira como as mensagens são acessadas. Saber como o perfil será lido no futuro pareceu dar aos usuários liberdade para construir “eus” em seus perfis de maneira a representar um eu futuro, que deverá ser atingido ou que era importante no passado. Desse modo, para algumas pessoas discrepâncias em certas características que poderiam ser mudadas no futuroeram consideradas mais aceitáveis do que outras que não podiam ser modificadas. Com a condição de não houvesse grande diferença ou o futuro fosse possível, a descrição enganosa era aceitável.
O dados retratam que os próprios sujeitos racionalizam seus erros de representaçãofocando na noção de múltiplos eus. Através das representações de eus presente, passado e futuro os sujeitos construíam uma representação digital do eu, permitindo que sejam ressaltadas características positivas com as quais se identificam mesmo não estando presentes na identidade atual.
Uma outra questão a ser observada é a evocação de um eu passivo e na não atualização de dados atuais e verdadeiros.

Sinais reduzidos: tendo que contar ao invés de mostrar
Ellison et al (2011) retrata que no contexto das comunidades de namoro online os usuários necessitam falar certas informações que não seriam necessárias numa relação face-a-face, como traços físicos. Contudo, isso se torna um problema devido a falta de auto-conhecimento dos indivíduos.  No caso de discrepâncias motivadas por uma visão errônea do próprio sujeito em sua descrição de perfil, esses equívocos são percebidos como aceitáveis pelos pares. Uma estratégia possível no caso do conflito entre auto-representação e honestidade é a utilização de ambiguidades ou equívocos, de maneira que não sejam ditas mentiras e nem verdades, como por exemplo: tipo físico médio.
Outro dado relevante é a escolha entre duas opções não tão corretas, daquela mais positiva, sendo sente comportamento percebido pelos usuários devido à habilidade de ser completamente honesto estar bloqueada pelos espaços reduzidos.

Mentindo para escapar da fogueira: Equívocos esperados na representação dentro de ambientes online
Ellison et al (2011) abordam que em relação aos equívocos aceitáveis, os usuários também utilizam expectativas compartilhadas sobre os significados de informações apresentadas no perfil, interpretando certas características da mesma forma que a comunidade compreende, como por exemplo o termo “curvilínea”.  Os dados das entrevistas demonstram uma expectativa compartilhada sobe as possibilidades de realce nos perfis, o que tem implicações no julgamento de se as informações são falsas ou não aceitáveis.  Em resumo, os dados sugerem que a relação entre os usuários e os equívocos é moldadapela assincronia do perfil, as sinalizações reduzidas e as expectativas compartilhadas pela comunidade online.

Tópico 5 –Discussão
Os autores colocam o pioneirismo do trabalho que pretendeu explorar como os usuários de sites de namoro online conceitualizam e racionalizam as discrepâncias em suas apresentações nos perfis online. Foram explorados os conceitos dos usuários acerca de aceitação de equívocose a relação do espaço de tempo entre a construção do perfil e o seu consumo, bem como as sinalizações reduzidas no ambiente online e a base comum comunal online (o namoro online).

Arcabouço do perfil como promessa
Nesta seção os autores argumentam, com base no referencial teórico e análise, que o perfil em sites de namoro online é construído como uma promessa para um grupo de pares que se encontrarão em algum momento no futuro mais do que uma representação fiel de alguém, sendo claro para a comunidade este contexto. Desse modo é compreendida a diferença que os usuários fazem entre os erros aceitáveis e os inaceitáveis. A ideia principal é a de que a desenho contido na descrição do perfil não difere fundamentalmente da realidade, desse modo, não é esperado pelos usuários que o perfil represente uma cópia fiel do indivíduo no ambiente off-line.
No caso dos sites de namoro online, é esperado o relacionamento amoroso e assim a publicação de certas características também, uma vez que em ambientes online estas precisam ser “faladas”, diferente do ambiente off-line em que estas seriam vistas. Logo, o perfil torna-se obrigatório para possibilitar futuros relacionamentos aos usuários, podendo ser visto como um contrato psicológico (Rousseau, 2001), uma vez que informações são veiculadas de comum acordo e de maneira mútua, sendo quebradas tais relações se por ventura houver enganos no conteúdo apresentado offline.
Os autores propõem três propriedades do arcabouço “perfil como promessa”: as promessas precisam ser explicitadas mas podem surgir dentro de contextos que sinalizam as intenções da promessa; as promessas personificam um aspecto da temporalidade pois são orientadas para o futuro; as promessas são tipicamente incompletas uma vez que não se pode prever o futuro de um relacionamento.
Citando a obra de Goffman (1959), os autores argumentam que a obrigação moral das promessas é inerente às deixas na auto-apresentação uma vez que os indivíduos tendem ase relacionar com os outros mediante as impressões que percebem sobre seu passado e futuro. Estas impressões tendem a serem tratadas pelos pares como promessas implícitas e como tais tendem a ter um caráter moral, logo uma violação destas é vista como inaceitável e moralmente incorreta.

Usando o perfil como promessa nos dados das entrevistas
Em relação ao arcabouço teórico “perfil como promessa” é objetivada a compreensão sobre o processo de auto-apresentação em espaços online, bem como aumentar as pesquisas disponibilizando insights sobre o modo como usuários de sites de namoro online percebem suas mensagens e apresentação pessoal e como acessam as informações de outros.
No que concerne às discrepâncias aceitáveis, um dos critérios é a possibilidade da promessa ser comprida no futuro, sendo vista como alcançável e realista, sendo maleáveis e de pouca magnitude. Logo aquelas que não podem ser mantidas são vistas como inaceitáveis
Os autores sugerem que os usuários racionalizam os equívocos nos perfis devido à natureza temporal das promessas, selecionando atributos a partir de eus passado, presente e futuro, expostos para construir identidades que possibilitem incluir realces e a identificação como alguém honesto.
É colocada a crença de que o aporte teórico do perfil como promessa permite descobertas sobre as formas de construção de personas pelos usuários e permite às pesquisas nas apresentações online uma análise imparcial sobre a veracidade das informações e a experimentação de identidades fantasiadas. Sugere-se que pesquisas futuras deverão considerar as formas nas quais as dimensões temporais das interações online afetam a auto apresentação e as avaliações.
Os autores referem que neste contexto os sinais são sempre incompletos devido às dificuldades de representação de um eu dinâmico e das restrições técnicas. Na construção do perfil os usuários se baseiam em expectativas compartilhadas sobre como seus pares se utilizam da trapaça ou da codificação de certas descrições que modificam a interpretação do perfil e da promessa. Como exemplo a linguagem usada que está de acordo com o contexto e produzem e interpretam informações acerca das promessas presentes nos perfis.

Direções futuras e limitações
Os autores descrevem seu trabalho como foco nas implicações do gap entre a criação do perfil e seu “consumo” na percepção dos usuários sobre a auto-apresentação e sua lógica quando o perfil é mostrado. É ressaltada a necessidade de mais pesquisas no que concerne à maneira pela qual a construção psicológica do perfil impacta na auto-apresentação e na formação de impressões em outros contextos assincrônicos.
Os autores referiram dentre os resultados esperados que as discrepânciasfossem julgadas de maneira severa em situações de curto espaço de tempo. É colocado que o presente estudo explorou as implicações do “falar” sobre características que seriam aparentes na comunicação face-a-face. Em relação aos achados, foi sugeridoque a perspectiva “Hyperpersonal” pode ser estendida ao incorporar considerações sobre compreensões gerais em contextos específicos. São propostos novos estudos sobre como o ato da criação do perfil afeta o senso de identidade, autoestima e conhecimento do ‘eu’. Já sobre as limitações, os autores colocam a delimitação dos usuários na área de Nava York e de membros de grandes sites de namoro, bem como a metodologia de avaliação de perfis e posterior entrevista, sendo esta feita de maneira a propiciar racionalizações sobre o próprio comportamento.
Os autores sugerem em futuras pesquisas a captura do pensamento dos participantes durante a criação do perfil.

Tópico 6 –Conclusão
Como conclusão, os autores relatam que ao longo da década a explosão de fóruns online, redes sociais, sites de namoro, wikis, blogs, sites de compartilhamento e notícias trouxe à questão de qual a melhor forma de explicar como e porquê a prática da comunicação nestes ambientes diferem. Pesquisadores explicaram o efeito das características das comunicações mediadas por computador, como o ambiente com “sinalização reduzida”[tradução nossa], comunicação interpessoal e o desenvolvimento de relacionamentos. Dos estudos sobre contextos online específicos como opostas as características gerais da comunicação mediada por computador “sugerem que as expectativas especificas compartilhadas que se desenvolvem entre os membros de um ambiente online particular afetarão a prática comunicativa dos membros”[tradução nossa], contudo as abordagens não foram integradas à uma perspectiva teórica compreensível que englobasse ambos os contextos.
É colocado pelos autores que a proposta teórica do “perfil como promessa” pretende a exploração da produção de mensagens mediadas, bem como sua avaliação. Os fatores técnicos e sociais do contexto particular moldam a produção e a posterior avaliação das mensagens de maneira importante, englobando a natureza mutável do perfil, os “sinais reduzidos” e as ideias compartilhadas dentro de um mesmo ambiente/ comunidade. Tal proposta teórica objetiva explicar o processo pelo qual os usuários decidem o que incluir ou não quando criam o perfil, permitindo a compreensão da dinâmica e de quando uma representação é mentira ou uma promessa futura.

Nenhum comentário:

Postar um comentário